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Onaldo Queiroga

Coluna Crônicas por Onaldo Queiroga

Onaldo Queiroga é pombalense - Juiz da 5ª Vara Cível da Capital - Escritor de vários livros. CONTATOS: onaldoqueiroga@oi.com.br



  • NOVA CRÔNICA: "Deixemos de conversa"

    Publicado em Aug 18, 2015

    Adolescente, em tempo de maré seca, eu costumava caminhar pelas areias da praia do Cabo Branco. Saía do Busto de Tamandaré indo até a ponta mais extrema.

    Pelo trajeto, a água do mar molhava meus pés. Eu ia contemplando a beleza infinita da natureza. Um mar de águas verdes, ondas serenas, um oceano que mais parecia uma enorme piscina. O vento soprava o balé das palhas dos coqueirais.

    Não havia barracas, apenas a barreira exuberante no horizonte, e, lá em cima, o farol. Na paisagem, três espigões, sendo o último o João Marques de Almeida. Passava da Praça de Iemanjá, e já estava na barreira, de onde mirava a Praia dos Seixas e os barcos dos pescadores. A barreira tinha sua vegetação e beleza conservadas. Nem a natureza, nem o homem as açoitavam.

    Algumas vezes subi até o farol. A visão nos levava ao infinito mar. Víamos toda orla do Cabo Branco, passando pela de Tambaú, onde o olhar findava-se numa outra ponta de mar, onde se visualizava o Hotel Tambaú, uma construção em formato de disco.

    O tempo passou. Voltei a caminhar pelas mesmas areias, outrora adolescentes. Fui até a Ponta do Cabo Branco. O amanhecer ainda em ouro se torna. Mas, o homem, não cuidou da praia e nem muito menos da barreira. Pelo trajeto, deparo-me com inúmeros e imensos espigões. O mar avançou engolindo areia, coqueiros e passou a consumir a barreira.

    O homem discute projetos, soluções em desenhos, argumentos e licitações. Enquanto não saem do papel, o barulho das ondas sacode a barreira, sua pele desce, mistura-se com a água do oceano e o verde das águas se torna turvo. A barreira chora e clama por solução. Não há mais tempo para muito pensar. É preciso agir, atuar de forma rápida, planejada, com soluções eficientes e definitivas. Remédio existe, contudo, há projetos demais e pouca ação.

    Deixemos de conversa, antes que seja tarde demais. Desejamos vê-la exuberante, com seu amanhecer de céu dourado e de águas que, aos poucos, tornam-se prata até surgir o verde, que "chega a doer", como bem declama Katia de França, em sua consagrada canção "Ponta dos Seixas".


  • "Vinte e seis anos de Saudade"

    Publicado em Jun 8, 2015

    A história conta que o sertão no dia dois de agosto de 1989 amanheceu melancólico. O sabiá, o carão, a asa branca e a acauã entoaram um canto dolente numa homenagem de adeus ao cancioneiro maior do sertão.

    O zabumba tocou tristonho, o triângulo respondeu sentido e a sanfona em despedida chorou a ida do seu dono. O vaqueiro, em respeito, da cabeça tirou o chapéu colocando-o sobre o peito esquerdo e soltou um aboio de saudade.

    O caboclo acendeu fogueira e balões subiram guiando o cavaleiro alado pelo azul infinito do céu.

    Mas ele não se foi. Seu exemplo de vida e sua obra permanecem povoando a nossa existência. Basta olhar um rosto sofrido, a caminhada dos retirantes, a travessia de um riacho seco, que logo vem sua imagem.

    Falar em sertão é lembrar de Luiz Gonzaga. Em suas canções ele cantou tudo sobre esse encantado pedaço de terra. Falou da seca, da invernada, dos pássaros, dos padres, dos cangaceiros, das cidades, das cabrochas, da fé que move o seu povo, enfim, de tudo um pouco.

    O filho de Januário é chuva que não vem, é sertanejo em busca d’água, é vaca magra soluçando saudade, esmorecida nas veredas no ocaso cinzento da estiagem desoladora que sob a égide do sol castiga uma nação chamada Nordeste. É ouvir o gemido do gado morrendo de sede, num céu sem nuvens.

    Mas o filho de dona Santana é também mato molhado, inverno amanhecendo com a passarada, água corrente enchendo córregos, riachos, rios e açudes. É colheita do milho e do algodão. É a voz das cantorias, dos aboios e das novenas. É baião, forró, xote, xaxado, coco, embolada, mandacaru, repentes, choro e frevo de um povo.

    Nos umbrais da cultura brasileira o repouso eterno. Seus restos mortais descasam no Parque Aza Branca. Lugar sagrado do Baião, onde os espelhos das águas do Itamaragy refletem a paz do azul celestial e o cantador aguarda pacientemente a suavidade do bafejo noturno do vento “Cantarino”.

    Tu sempre estarás no Nordeste: nas noites de São João, nos foguetes, na sua animação, nas suas crenças, no fole gemendo, na fogueira, na chapada do Araripe com sua floresta e seus encantos.

    Enquanto houver sertão, um pé de bode, uma sala de chão batido, uma morena faceira num arrastar de alpargatas de um samba que se renova, jamais tu será esquecido. Viva Luiz Gonzaga!


  • "O nada: um poder tão feroz que aniquila sonhos e vida"

    Publicado em Jul 16, 2015

    Quando nos referimos ao vocábulo “nada”, logo vem a idéia de que o nada é algo inofensivo, que não causa prejuízo algum e que não interfere nas nossas vidas.

    Ledo engano. O nada tem um poder destrutivo tão feroz que aniquila sonhos e vidas. Algumas pessoas entendem que o nada está afeto à personalidade dos covardes, daqueles que não assumem posições e vivem em cima do muro. De outro lado, tem quem diga que muitos se utilizam do nada propositadamente para provocar situações vexatórias, constrangedoras e até mesmo dolosamente detonar projetos de outrem, apenas e simplesmente pelo sentimento da inveja.

    Se existem pessoas que se notabilizam pela coragem de assumir posições fortes e enfrentar intempéries, outras se escondem sob o manto do nada. Não assumem posições, não têm coragem de colocar as cartas na mesa e de público dizer qual o caminho que vão seguir.

    Esses sentam na beira da estrada, assistem ao caos se instalar e até mesmo diante de sua inércia contribuem com a implantação da desordem, quando na verdade a chave para a solução do problema está na sua própria mão.

    Fico assim a imaginar quando uma pessoa com essas características assume um cargo de destaque. O nadaísmo transformará a credibilidade em descrédito, a confiança em desconfiança, a eficiência em ineficiência, a normalidade no completo caos.

    É possível até se visualizar o ápice do nada, que aflora em decorrência de pessoas que talvez sofram de obnubilações, que se deixam levar pelo deslumbramento e passam a ser guiados por uma confusão mental que dificulta a conexão de pensamentos e, com isso, se socorrem, infelizmente, do nada como nutriente da sua própria existência.

    O nada, que tem como combustível a inércia, não tem o direito de obstruir ou dilapidar o sonho de ninguém. Emmanuel nos ensina que: “Ninguém possui medida bastante capaz, a fim de avaliar as dificuldades alheias”. Porém, sabemos que a humanidade está cansada daqueles que lavam as mãos e se refugiam sob o manto do nada.

    O nada, com seu silêncio, é algo muito perigoso, sucumbe a felicidade e esmorece a coragem. É preciso que o homem tenha o desassombro de agir, buscando o bem como prioridade, pois errar involuntariamente é compreensível, tendo em vista que é no erro que se aprende.