Radio Liberdade

Pombal, 24 de março de 2017 - 14:52

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Onaldo Queiroga

Coluna Crônicas por Onaldo Queiroga

Onaldo Queiroga é pombalense - Juiz da 5ª Vara Cível da Capital - Escritor de vários livros. CONTATOS: onaldoqueiroga@oi.com.br



  • NOVA CRÔNICA: "Que mundo é esse?"

    Publicado em 10/03/2017

    O homem com sua visão egocêntrica, costuma julgar seus semelhantes sem antes de tudo se colocar do outro lado, para assim, fazer uma avaliação com maior equidade e prudência da situação, objeto do seu olhar.

    O outro lado da moeda dificilmente é vestido por quem se acha no direito de criticar e julgar. É mais fácil atirar pedras e levianamente promover uma erupção de falas levianas. O risco é que agindo assim pode-se, sem se possibilitar defesa, condenar um inocente, afundando-o em um poço profundo, de onde inevitavelmente o apedrejado terá enorme dificuldade para conseguir se levantar novamente.

    Não compreendo por que depois de tantas eras, o homem não tenha evoluído quase nada nesse aspecto espiritual. Continua agressor, opressor, ditador, cruel, egoísta e aniquilador. Não é pensamento negativista, mas uma realidade que constatamos todos os dias, pois basta olharmos para a situação lastimável dos nossos irmãos da Síria, Iraque, Somália e de uma boa parte dos países do continente Africano.

    E o Brasil? A criminalidade gerou uma insegurança preocupante. É uma frieza que assusta, pois é como se o crime tivesse virado algo banal. No ar o desrespeito generalizado, um ultraje com o escopo de quebra de autoridade.

    É preciso que o homem pare e faça uma viagem ao seu âmago. Reflita e veja que a felicidade não está nesse desenfreado consumismo material, na busca insana por poder e de ver dinheiro como deus. A paz que nos torna feliz é resultante da compreensão de que, em termos materiais, basta ter o suficiente para a caminhada da vida, somado a atitude voltada para a solidariedade e a comunhão com Deus.


  • "A madrasta estiagem"

    Publicado em 08/02/2017

    Entra ano e sai ano, dias e noites e a estiagem faz morada no meu sertão. Fêmea impiedosa que seduz o sol para bem perto do chão, para intensamente beber a água dos riachos, açudes e barragens.

    Ventos sopram e levantam poeiras abrasadoras, que devoram plantações, animais e homens. Desvanecem a paciência, a esperança e sonhos. Transformam o verde num deserto mundo de olhares perdidos. Como é piedoso acordar sob o vento cortante da estiagem. Sem chuva, com fome e sede, o caboclo da rede balança o desânimo. Menino chora, mulher reclama e um cachorro de olhar piedoso dorme debaixo da mesa. Da janela, céu limpo, terra rachada e uma vaca esquelética a espera da morte chegar.

    A seca é assim, um imenso mundo cinzento. Um tempo de desolamento, esquecimento e miséria. O sertão dos verdes pastos esmorece diante da falta d’água, e, o povo, por sua vez, tem que suportar a fúria da natureza imposta pela seca.

    Em 2013, escrevi um texto onde afirmei que aquele ano se iniciava com a dor da estiagem e que era preciso fé e acreditar que Deus jorraria água sobre o Nordeste. O tempo passou e nada de chuva. Vivenciamos hoje uma das maiores estiagem da nossa história. Jamais imaginei ver Coremas virar lama. Sem água, Campina Grande pede socorro. Aliás o Nordeste.

    É inaceitável que em pleno Século XXI estejamos fugindo de problemas seculares. Se não choveu o esperado, inegável que também deixamos de ter um planejamento eficaz para chegarmos onde chegamos. A falta não é só de chuva, é educacional, cultural e de compromisso em equacionalizar definitivamente tais questões através de política hídrica capaz de sepultar tais males.


  • "70 anos da Asa Branca"

    Publicado em 16/01/2017

    Há muito tempo, nos bancos de areia do Rio Pajeú a manhã da estiagem acordou mais cedo. Descortinou um céu azul e um sol intenso. Secou riachos, rios e açudes esturricando o chão.

    O gado de sede deitou a morte esquelética. Silente, a passarada bateu em retirada, anunciando a seca. O sertanejo no apanho do algodão entoava uma cantiga dolente: “Asa Branca bateu asa. Foi simbora do sertão. Lá, ra, ra, não chore não. Asa Branca foi simbora do sertão”.

    Numa dessas estiagens, seu Januário em 1905 deixou Floresta-PE, mas levou consigo, para as margens do Riacho da Brígida, a cultura da Asa Branca. Lá no Araripe, com seu fole de 8 baixos, cantarolava dolentemente a saga dessa ave para seu menino Luiz Gonzaga. Um dia o menino vestiu-se de Asa Branca. Retirante saiu numa légua tirana, deixando sua terra para correr o mundo.

    Passou por guerras, mas nenhum tiro disparou. No seu vôo avistou um Rio de Janeiro. Sua sanfona já começava a entoar saudade do seu torrão. Lá encontrou um poeta de alma franca e com olhar de esperança, Humberto Teixeira, filho do Iguatu-CE. Luiz e Humberto, em março de 1947 resolveram cantar a história da Asa Branca para o mundo.

    Foi assim, que essa “cantiga de eito, de apanha de algodão” bateu asas e lentamente tornou-se símbolo de um povo. Setenta anos de toada, de história oficial de letra e de música, de uma bandeira da paz. Sem Luiz e Humberto, hoje em vôo solitário, parafraseando Dálton Vogeler ela entoa: “quando o verde dos teus óio se espaiá na prantação. Uma lágrima dorida vai moiá todo o sertão. No cantar do Assum Preto, vai se ouvi máguas e dô: Ribaçã morrê de sede com saudade do doutô. Foi se embora a asa branca; lá pro céu ela levô os poetas de almas francas, que todo mundo cantô. Meu padrinho Padim Ciço, faça deles seus assessores. Morrem os homens ficam os nomes.”