Radio Liberdade

Pombal, 17 de janeiro de 2017 - 06:55

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Onaldo Queiroga

Coluna Crônicas por Onaldo Queiroga

Onaldo Queiroga é pombalense - Juiz da 5ª Vara Cível da Capital - Escritor de vários livros. CONTATOS: onaldoqueiroga@oi.com.br



  • NOVA CRÔNICA: "70 anos da Asa Branca"

    Publicado em 16/01/2017

    Há muito tempo, nos bancos de areia do Rio Pajeú a manhã da estiagem acordou mais cedo. Descortinou um céu azul e um sol intenso. Secou riachos, rios e açudes esturricando o chão.

    O gado de sede deitou a morte esquelética. Silente, a passarada bateu em retirada, anunciando a seca. O sertanejo no apanho do algodão entoava uma cantiga dolente: “Asa Branca bateu asa. Foi simbora do sertão. Lá, ra, ra, não chore não. Asa Branca foi simbora do sertão”.

    Numa dessas estiagens, seu Januário em 1905 deixou Floresta-PE, mas levou consigo, para as margens do Riacho da Brígida, a cultura da Asa Branca. Lá no Araripe, com seu fole de 8 baixos, cantarolava dolentemente a saga dessa ave para seu menino Luiz Gonzaga. Um dia o menino vestiu-se de Asa Branca. Retirante saiu numa légua tirana, deixando sua terra para correr o mundo.

    Passou por guerras, mas nenhum tiro disparou. No seu vôo avistou um Rio de Janeiro. Sua sanfona já começava a entoar saudade do seu torrão. Lá encontrou um poeta de alma franca e com olhar de esperança, Humberto Teixeira, filho do Iguatu-CE. Luiz e Humberto, em março de 1947 resolveram cantar a história da Asa Branca para o mundo.

    Foi assim, que essa “cantiga de eito, de apanha de algodão” bateu asas e lentamente tornou-se símbolo de um povo. Setenta anos de toada, de história oficial de letra e de música, de uma bandeira da paz. Sem Luiz e Humberto, hoje em vôo solitário, parafraseando Dálton Vogeler ela entoa: “quando o verde dos teus óio se espaiá na prantação. Uma lágrima dorida vai moiá todo o sertão. No cantar do Assum Preto, vai se ouvi máguas e dô: Ribaçã morrê de sede com saudade do doutô. Foi se embora a asa branca; lá pro céu ela levô os poetas de almas francas, que todo mundo cantô. Meu padrinho Padim Ciço, faça deles seus assessores. Morrem os homens ficam os nomes.”


  • "Adeus 2016"

    Publicado em 30/12/2016

    Encerra-se mais um ano, mais um período de nossas vidas. É hora do adeus ao ano de 2016 e logo estarão adormecidos seus acontecimentos bons e ruins.

    Perdemos entes queridos que nos deixaram saudades, muitos sonhos também ficaram pelo caminho, mas alcançá-los todos de uma só vez não seria razoável, já que eles são combustíveis que impulsionam nossas vidas.

    O fim de um ano marca o encerramento de um ciclo, de mais uma etapa de nossas vida, onde suportamos tristezas, perdas e decepções. Mas é diante da dor que devemos apreender a lição de Emmanuel que nos ensina: “Não bastará sofrer. É preciso aproveitar o concurso da dor, convertendo-a em roteiro de luz. A esperança é a filha dileta da Fé. Ambas estão, uma para a outra, como a luz reflexa dos planetas está para a luz central e positiva do sol”.

    Nunca se falou tanto sobre desarmonia familiar, drogas e crimes. O certo é que Deus nos ensinou o caminho do bem, mas se preferimos a destruição da natureza, irracionalmente estamos destruindo a nossa própria existência. 2016 foi um ano como os outros, de desastres, perdas e desencantos profundos diante da corrupção, mas, inegavelmente que serviram e servem para mostrar o caminho correto a ser seguido.

    Não podemos negar que vivemos momentos de alegria e novas amizades. Tudo serviu para renovarmos a fé, a esperança e o amor. Devemos ser como os sábios: que compreendem as incompreensões, que entendem e sabem conviver com os desentendimentos, e que na escuridão do materialismo acedem a luz espiritual para guiá-los ao encontro da paz.

    Adeus 2016, que venha 2017 e com ele a consciência de que com solidariedade e fé teremos condições de mudar e abraçarmos a paz. Que Deus tenha paciência e continue a iluminar o homem!


  • "Inseparável Monark"

    Publicado em 27/12/2016

    Numa aurora inalcançável havia um menino que acordava ao som do apito da Brasil Oiticica e logo que pulava da rede, montava em sua Monark vermelha e pedalava pelo mundo dos sonhos. Subia e descia ruas, calçadas e praças, sentindo em seu rosto o vento das primeiras aventuras.

    Da casa dos avós, guiava sua bicicleta para a Rua do Roque, onde parava na torrefação do Café Dácio. Pedia a bênção do avô Antônio Rocha, ganhava umas moedas e seguia em seu roteiro.

    Passava pela rua estreita e logo chegava ao Mercado Público, no bar de Maria de Biró. Ali, bebia uma fanta gelada, conversava com o amigo Cláudio de Biró, passava no relojoeiro, “seu” Edvaldo, comprava uns vidros de relógios para organizar seu time de botão.

    De lá, o menino ia ao estúdio do Lord Amplificador, difusoras que marcaram época, pois todos os dias ele ouvia aquele sistema de comunicação acordar Pombal, com uma programação recheada de propagandas, recados diversos e sob a égide do forró nostalgicamente entardeciam o Sertão. A noite chegava, lá estava novamente o Lord falando com seu povo, agora, suavemente.

    Com sua bicicleta, o menino seguia até bodega de Cazuza. Falava com Zé Valdo, comia uma mariola e saía rumo à Rua Nova, parando na casa de Hildebrando. Conversa vai, conversa vem, descia até ao armazém do seu Dantinha, onde o amigo Neudo sentado num tamborete, com uma bola de futebol na mão, já escalava seu time para o jogo da tarde, no muro de dona Raimunda.

    Com sua inseparável bicicleta transitava livre pelas veredas sertanejas. A cada esquina, descortinava um pedaço novo da vida. O menino não sentia o tempo passar, pois tudo era belo e inocente. Mas se foi o tempo-menino. Hoje adulto, os anos antigos só são vistos no crepúsculo de uma lágrima alegre da memória, desenhada pela saudade de um eterno menino.