Radio Liberdade

Pombal, 05 de May de 2016 - 01:42

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Onaldo Queiroga

Coluna Crônicas por Onaldo Queiroga

Onaldo Queiroga é pombalense - Juiz da 5ª Vara Cível da Capital - Escritor de vários livros. CONTATOS: onaldoqueiroga@oi.com.br



  • "Será que preferimos, costumamos servir ou de ser servido?"

    Publicado em Jan 4, 2016

    Paremos um pouco para refletir sobre nossas ações. Será que preferimos, costumamos e temos em nós o prazer de servir ou de ser servido?

    Não precisa muito esforço para se constatar que uma esmagadora maioria dos homens adoram ser servidos. Além do mais, outra boa parte da humanidade também adora não servir a ninguém, pois vivem sob o culto do egocentrismo.

    É visível que muitos que se colocam como conhecedores e até se intitulam como praticantes da palavra de Deus, mesmo assim, no exercício de suas atitudes terminam, na prática, não servindo aos seus semelhantes, mesmo sabendo que servir é uma atitude que muito agrada a Deus, primordialmente, quando o servir vem descompromissado do intuito de obtenção de algo que lhe favoreça. É preciso servir sem o interesse de retorno. Quem assim age cresce e se fortalece perante Deus.

    Mahatma Gandhi costumava afirmar que: "Quem não vive para servir, não serve para viver". É dura a frase. Mas os egoístas realmente não vivem, são escravos do materialismo e do ilusório pensar que são eternos. Pobres seres! Devemos lembrar que Jesus veio ao mundo não para dar ordens, mas para servir com humildade e amor. Na Bíblia, em Mateus 23:11, encontramos o ensinamento de que: "O maior entre vocês deverá ser o servo". Já Lucas 22:27 aponta que: "Pois quem é maior: o que está à mesa, ou o que serve? Não é o que está à mesa? Mas eu estou entre vocês como quem serve".

    É fácil compreender esse ensinamento Divino. Incompreensível é verificar que mesmo sendo simples e inteligível, o homem resiste em não praticar o servir. O amigo Júnior Cavalcanti ponderou: "Servir ainda é uma incógnita ao ser humano. Para muitos ser servido ainda é a melhor escolha". Realmente é uma triste verdade que tem levado a humanidade à desertos e esquinas egoístas, profundamente ligadas ao caos, ao trágico e ao desamor.

    Servir é luz que nos permite a paz espiritual e que demonstra que a força do poder e do dinheiro deve ser revertida para atender aos anseios dos necessitados.


  • "Banho de chuva no Sertão"

    Publicado em Jul 3, 2016

    Não há banho de chuveiro, de banheira, de piscina, de mar, de cachoeira, de açude, de rio e de riacho, que seja melhor do que um banho de chuva no sertão de meu Deus.

    Só quem é das plagas sertanejas sabe bem o que representa despedir a estiagem, que na curva da estrada faz seu caminho para o oco do mundo. Açoitada pelos relâmpagos cortando os céus e sob o som estremecedor dos trovões, a seca vai embora e o menino corre livre pelas veredas banhadas pelas chuvas. Ele vai parando em cada biqueira, molhando o corpo e lavando a alma. O moleque segue sem medo dos raios e banhando-se alegre nas águas da chuva mandada por Deus, corre feliz na amplidão do sertão.

    Um dia fui menino no sertão. A invernada me lembra bem esse momento já vivido. Quando a chuva chega logo me recordo desse tempo. Por muitas vezes, em tardes de chuvas, desci e subi as ruas da minha terra Pombal.

    Não adiantava ordens de pais ou de avós para ficar em casa, a molequeira ganhava as ruas. O banho de chuva nos atraía para o mundaréu d'água que caía fortemente do céu sertanejo. O banho de chuva era, e ainda é, um batismo para a felicidade, principalmente no sertão, que quando chove, veste-se do belo verde, contagiando-nos de esperança por dias melhores, a cada pingo que vem do céu

    Quando vi a notícia de chuva no sertão, me inquietei. Queria descer a Serra de Santa Luzia. Ir ao encontro da chuva e abraçando o sertão, deitar numa rede e da varanda ver o céu carregado de nuvens escuras despejar água naquele mundo todo. Queria ver os clarões dos relâmpagos, ouvir o ronco dos trovões e o som da sinfonia das águas batendo e escorrendo pelas telhas.

    Queria ver o voo da volta da Asa Branca descrito por Zé Dantas e cantado por Gonzagão. Queria sentir a poesia Zé Marcolino: “Pássaro Carão cantou / Anum chorou também / A chuva vem cair no meu sertão / Vi um sinal meu bem / Que me animou também / Ainda ontem vi cobra no chão / É bom inverno que vem...”

    Vou voltar ao sertão. Vou tomar banho de chuva, deixando-a que lave meu corpo e minha alma, renovando minhas energias, sonhos e fé em dias de paz e amor nesse mundo de desencontros.


  • "Esperança"

    Publicado em Feb 3, 2016

    Acordamos todos os dias sob a batuta das tragédias. Os meios de comunicações já amanhecem colocando em nossas mesas um café da manhã amargo e indigesto, repleto de assaltos, corrupção, tráfico de drogas, guerras, terrorismo, enfim, um cardápio de muito sangue e mortes.

    São tempos de desencontros, de mutilações conceituais, de extremismo envolvendo a luxúria e a miséria, o materialismo e o espiritual, o ódio e o amor. Um mundo que demonstra que o homem evoluiu em muitas áreas, mas continua, em tantas outras, o mesmo ser insano e apaixonadamente vivente da vaidade, da prepotência, do poder pelo poder e quase que desconectado com a solidariedade.

    Moderno velho homem. Fomentar guerras que bombardeiam semelhantes, inclusive, provocando destruição de prédios civis, até mesmo hospitais, é algo bárbaro e que só aponta a contramão em que caminha a humanidade. As inglórias batalhas já vividas na história humana não foram suficientes para mostrar ao homem como é fácil entender que em vez de guerra é mais simples e razoável aplicar bilhões e bilhões de dólares, euros e reais em educação, esporte, saúde e cultura, pois, só assim, teremos um planeta com paz, sem miseráveis e minimamente feliz.

    Esses aspectos terminam por gerar uma onda de incentivo à incredulidade e descrença num mundo melhor, provocando, por consequência, o crescimento ainda maior da violência que beneficia poucos homens, aqueles compromissados com a indústria armamentista e com o grande capital, pessoas descomprometidas com a fé, o amor e a solidariedade.

    Ora, como declamou Augusto dos Anjos: “A esperança não mucha, ela não cansa / também como ela não sucumbe a crença / vão-se sonhos nas asas da descrença / voltam sonhos nas asas da esperança”.

    Apesar desses desencontros e da certeza de que assiste razão a Voltaire quando afirmou que “a esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se mistura o veneno do medo”, ainda alimento a ideia de Aristóteles que nos ensina que: “A esperança é o sonho do homem acordado”. Enquanto houver vida, haverá esperança por mudanças, principalmente, do próprio homem, pois só assim, existirá perspectiva concretas de prolongamento da existência humana.