Radio Liberdade

Pombal, 28 de junho de 2017 - 07:41

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Inacio Tavares

Coluna Recordação por Inacio Tavares

Inacio é Economista. Colunista da Liberdade FM onde escreve sobre vários temas. CONTATOS: itavaresaraujo@yahoo.com.br



  • "Minhas aventuras no Piancó"

    Publicado em 10/09/2014

    Esta é uma estória da minha adolescência que vez por outra matraqueia a minha memória. O cenário do acontecido são as águas barrentas do Piancó, principalmente nos anos de transbordo de suas calha.

    Isso mesmo, a barragem de Mãe D’água ainda não havia sido construída. As cheias do Piancó aconteciam com mais frequência, portanto, bastava uma chuva grande à montante da bacia do Açude de Coremas, para que o Rio transbordasse, invadindo a Rua de Baixo, às vezes até a rua do Comércio.

    Eu gostava dessa situação, pois, quanto mais cheio estivesse o Rio maior era a festa da meninada da Rua do Comércio. Para nós, naquela época, nadar nas águas barrentas do Piancó era a melhor diversão.

    Os lugares mais frequentados para os nossos banhos diários era a pedra da sedan, a pedra redonda e o buraco de Zé Bispo. Mas, o grande desafio era avançar Rio adentro em épocas de cheias.

    Dão, primo e amigo, era o companheiro de aventuras quando das nossas incursões, escanchados sobre possantes cavaletes, nas águas barrentas do Piancó.

    Devia ter cerca de doze anos e o primo perto dos dezoito. O meu irmão Felix não era muito de enfrentar as correntezas do Piancó, a não ser de canoa. Nunca foi um bom nadador, por isso evitava enfrentar os trambordos do Piancó.

    Assim sendo, ao lado do primo Dão, cada um com um possante cavalete, desafiava as águas do Rio, principalmente quando estavam a invadir a Rua de Baixo.

    Quanto mais cheio estivesse o Rio maior era a emoção de descer correnteza abaixo, escanchados nos cavaletes pertencentes ao tio mestre Álvaro. Era uma diversão e tanto.

    Os riscos não eram poucos, posto que os remansos bravios, corredeiras velozes, ameaçavam os nossos cavaletes. Balseiros que desciam no Rio nos preocupavam, pois, quase sempre havia cobras ávidas de um porto seguro para desembarcar.

    Eu e o primo virávamos como podíamos. Conhecíamos os melhores caminhos através dos quais era possível chegar ao sítio da minha avó, entre outros lugares, sem o risco de afogamento ou mesmo de sermos picados por cobras peçonhentas a espreitas nos balseiros passavam ao nosso lado.

    Na época das grandes enchentes, nem mesmo o mais habilidoso dos canoeiros aceitava enfrentar a fúria das corredeiras do Piancó. Isso era muito bom pra a gente, porque somente nós dois podíamos chegar ao outro lado do Rio.

    Ficávamos por dono de tudo. Passávamos pela roça de Dozinho, fazíamos uma limpeza nas pinhas maduras. Na roça de tio Marcionilo, o que havia de melancia, melão, a gente passava as mãos.

    Quando o Rio baixava todo mundo tomava seus lugares. Marcionilo ao chegar à ilha, onde estava situada a sua roça, sentia a falta das melancias e dos melões. Ao se encontrar com a gente indagava: ¨ô dãozinho, passaram na minha roça e comeram as melhores melancias e os melhores melões. “Ah, danadinhos”!

    Continuava: “não sei dizer quem fez aquele estrago, porem uma coisa me chama atenção: foram duas pessoas, um adulto e um menino. Não quero dizer que tenha sido você e Inacinho de Lourdes, que sempre lhe acompanha nas caminhadas pela beira de rio, por ocasião das enchentes. Agora, os rastros dão certinhos com os pés de vocês. Que coincidência, não é dãozinho”?.

    Dão dava uma boa gargalhada ante a desconfiança de Marcionilo. Apesar da nossa negação, sabíamos que, o velho tinha certeza de que fomos nós mesmos os autores do estrago. Na calçada da casa do meu tio Cândido, onde todos se reuniam pra conversar, sobre coisas do dia-a-dia, Marcionilo queixava-se dos piratas de Dona Ana. Uma referencia a nós dois.

    Nossas traquinices não se restringiam tão somente as roças de Dozinho e Marcionilo. Às vezes a gente descia até o poço do redondo e visitávamos a roça de Jorge Bispo, em busca de pinha madura. Éramos os reis do Rio.

    Quanto mais águas melhor pra a gente. Enfrentávamos remansos perigosos, corredeiras, mas a nossa habilidade na condução dos cavaletes nos deixava muito a vontade para enfrentarmos as situações adversas.

    Quando o Rio voltava ao leito normal acabava a nossa brincadeira. Ficávamos a aguardar outras oportunidades pra começar tudo de novo. Só havia um lugar que a gente evitava a qualquer custo.

    Era descer rio abaixo para ver o encontro do Piranhas com o Piancó. Essa junção acontece lá na forquilha de dona Vitalina, matriarca da família Lacerda e Junqueira.

    Quando queríamos ver o grande espetáculo do encontro das águas do Piranhas e do Piancó, muito antes deixávamos nossos cavaletes e íamos a pés até o local. Valia a pena porque era uma luta cujo vencedor era o Rio com o maior volume d’água.

    O cavalete, usado para atravessar o Rio, no momento de grandes enchentes, era a nossa grande arma. Para quem não sabe, trata-se de uma tora de madeira, estreita, com a extensão de até dois metros, feito da raiz da Timbaúba. Esta árvore é nativa do sertão chega atingir até vinte metros de altura.

    Na roça de Jorge Bispo, vizinha ao sítio de Ana, a minha avó, havia uma dessa espécie, que viveu por muito tempo. Mas, de tanto se tirar raízes pra fazer cavalete, terminou morrendo.

    Naquele tempo não existia consciência ecológica, a exemplo de hoje. Ah se tivesse, com certeza a nossa Timbaúba estava firme, exuberante, a produzir os cavaletes de que tanto necessitam os ribeirinhos.

    A raiz da timbaúba tem a mesma composição do material que se usa na fabricação de cortiça, ou melhor, tampa de garrafa. Por ser leve, suportava muito bem o peso de uma pessoa sem submergir as águas do Rio.

    Não sei se ainda existe algum exemplar dessa árvore ao longo da beira do Rio. Se a espécie desapareceu, só tenho a lamentar porque a natureza ficou mais pobre, bem como, nós também.

    João Pessoa, 09 de Setembro de 2014
    Ignácio Tavares


  • O que virá depois de 2014?

    Publicado em 26/08/2014

    O brasileiro é assim: que chova ou faça sol, quando a economia entra em estado de crise acredita piamente que mais cedo ou mais tarde tudo voltará ao seu devido lugar.

    Isso significa dizer que somos dados a crença que depois dos desarranjos econômicos o país, naturalmente, emergirá para um novo ciclo de fartura e bonança. Acontece que nem sempre as coisas acontecem assim, mas tomara que aconteça.

    Isso mesmo, por isso vale a pena lembrar que essa cultura conformista é uma característica bem definida do nosso perfil de renitentes otimistas. Na verdade estamos sempre a apostar num futuro auspicioso com justa razão uma vez que, por trás desse otimismo exacerbado está o fato de sermos a sétima economia mais importante do mundo.

    Mesmo respeitando esse estado de espirito do nosso povo torna-se indispensável fazer a seguinte pergunta: por quanto tempo o Brasil se manterá nessa invejável posição no cenário econômico mundial?

    Esta é uma pergunta que fumega nas discussões acadêmicas, a envolver as diversas tendências do pensamento econômico que rege as grandes decisões na condução da economia na atualidade.

    É quase consenso de que essa confortável posição da economia brasileira a nível mundial, não sobreviverá por muito tempo, justo por conta do seu medíocre desempenho observado na era do real, com destaque para os três últimos anos.

    Desse modo, a partir do momento que as economias da Europa, como a França, Itália, entre outras, retomarem o crescimento, com certeza haver mudanças no ranking das mais importantes economias do planeta.

    Noutras palavras, quero dizer que a economia Brasileira cresce, porém, a percentuais decrescentes. Em 2010, ainda no governo de Lula, o PIB cresceu 7,5%, mas, nos anos subsequentes esse espetacular percentual não se repetiu, pelo contrário foi reduzido a níveis insignificantes. Por exemplo, agora em 2014 estima-se que o referido agregado poderá crescer entre 1 e 0%.

    É verdade que este pífio crescimento esperado para este ano em curso é um reflexo do esgotamento do modelo econômico posto em prática pelo governo atual. Como estou a falar, os índices de crescimento observados nos últimos anos não têm sido capazes de fazer a economia crescer a níveis compatíveis com as necessidades de firmar o Brasil como a sétima economia mais importante do mundo, claro, num horizonte de longo prazo.

    Desse modo mudar é preciso. É verdade que promover a mudança de rumo do crescimento da economia é uma meta difícil de ser alcançada. Há muitas pedras no caminho que precisam ser removidas para que as coisas aconteçam.

    Uma dessas pedras é o baixo nível da poupança nacional que hoje gira ao redor dos 15%, quando no mínimo deveria estar em torno dos 25%. A esse nível de poupança a economia poderia crescer a um ritmo de 4,5 e 5% ao ano, de forma continuada, o que será o ideal para manter o Brasil no cenário mundial com potência econômica emergente.

    Faço uma oportuna pergunta – dos três candidatos mais competitivos qual deles apresenta melhores propostas no sentido de remover os obstáculos que impedem a economia crescer no ritmo desejado? Esta pergunta no momento não temos como responde-la, posto que, até o presente nenhum dos candidatos abriu o seu portifólio de propostas para fazer a economia retomar a rota do crescimento, num horizonte de longo prazo.

    Quanto a candidata oficial não alimento qualquer esperança de mudanças nos rumos da política econômica, uma vez que teve tempo de sobra pra fazê-lo e nada fez. Pelo contrário as suas intervenções equivocadas na economia agravou cada vez mais a situação.

    Os dois demais candidatos, inclusive Marina que acaba de ser guindada a condição de candidata após a morte de Eduardo Campos, prometem mudar os rumos dos instrumentos que regem a economia brasileira no sentido de assegurar um novo ciclo de crescimento.

    Isso mesmo, os candidatos das oposições falam de forma genérica o que não nos permite entender quais os instrumentos macroeconômicos de ação governamental serão adotados nos seus respectivos governos, casa um ou outro seja eleito.

    Diante dessa situação cabe a indagação: o que nos reserva 2015 em termos de expectativa de mudanças, para melhor, na economia Brasileira? Só nos resta apostar para que tudo dê certo, o que será bom pra nós, por conseguinte para o Brasil.

    Ignácio Tavares

    João Pessoa, 26 de Setembro de 2014


  • EMPREENDEDORES – Experiências passadas; Por Ignácio Tavares

    Publicado em 02/08/2014

    Recebi com certa alegria a notícia que a minha terra está entre os municípios que mais empreendem no Estado da Paraíba. Pra ser mais preciso, Cajazeiras e Pombal são considerados os municípios que mais se destacam na abertura de novos negócios. Sem dúvida este é um bom momento que poderá resultar na retomada do desenvolvimento local.

    É verdade que n’outras ocasiões empreendedores locais tentaram explorar determinados setores produtivos afim de produzir mercadorias com boas perspectivas de mercado. A primeira tentativa aconteceu no fim dos anos setenta ao início da década seguinte cujo foco foi a atividade doceira. Muita gente investiu nesse setor na esperança de auferir lucros extraordinários, por conseguinte aumentar o patrimônio familiar.

    Realmente, naquela época, no início do ciclo havia espaço para todos, mas com o passar do tempo as restrições de mercado, bem como a exacerbação do processo inflacionário obrigou a maior parte dos investidores a encerrar suas atividades. Foi a partir daí que os nossos empreendedores começaram a entender quão é complexo lidar com atividades produtivas em meio a um ambiente de incertezas.

    Também pudera, na ocasião a possibilidade de captação recursos pra investimentos, bem como capital de giro, não era tão fácil o quanto é hoje. Por isso, alguns candidatos a empresários se desfizeram dos seus bens a fim de fazer recursos para poder ingressar na nova atividade. Não sei se conseguiram reaver o valor do patrimônio desfeito porquanto o mercado consumidor favoreceu a atividade doceira.

    Com efeito, em razão das incertezas, muitos foram a falência, principalmente os empresários mais descapitalizados. Com o passar do tempo, das vinte uma fabricas de doce existentes na cidade restaram apenas duas, por sinal as mais capitalizadas. Este foi o fim de um ciclo de empreendimentos tocados por pessoas que acreditaram no sucesso de uma atividade produtiva de alto risco.

    Salvo engano, nos anos noventa desponta um novo ciclo focalizado na atividade pesqueira. Um banco oficial na cidade disponibilizou recursos, a juros generosos, para quem quisesse investir na criação e comercialização de peixes. Cerca de 32 proprietários, habilitaram-se a ingressar na atividade em questão. Parecia ser uma excelente oportunidade para ganhar dinheiro com um produto que não tinha problemas de mercado.

    Com efeito, essa nova aventura empreendedora não foi a frente, por conseguinte todos que ingressaram na atividade se viram endividados do dia pra noite. Havia muitas pedras no caminho que impediram o sucesso, entre as quais a falta de qualificação para lidar com a piscicultura.

    Os produtores não estavam preparados para o exercício da prática e manejo de uma atividade até então desconhecida. As metas de produção não foram atingidas. Digo, o ponto ótimo de produção que seria de dez toneladas/hectare ano. Esta produção, se atingida, era suficiente para cobrir os custo de produção e gerar lucros e ainda assegurar o pagamento dos investimentos. Seja, ninguém conseguiu sequer atingir dez por cento dessa meta.

    Desse modo, o que seria uma excelente oportunidade para ganhar dinheiro, como produtor de peixes, transformou-se numa tremenda dor de cabeça, principalmente, na hora de pagar as primeiras parcelas dos empréstimos realizados junto ao banco.

    Na sequência houve outra oportunidade para incentivar investimentos com o objetivo de explorar a criação de gado leiteiro. Tudo bem, mas, da mesma forma que as situações anteriores, os resultados não atingiram as expectativas esperadas.

    Dada a quantidade dos inscritos e beneficiados com recursos disponibilizados, houve uma certa dificuldade para órgãos envolvidos pôr em prática ações de acompanhamento e avaliação permanente para evitar desvios dos verdadeiros objetivos do projeto. O resto da história todos nós sabemos.

    Feitas essas considerações sobre algumas tentativas empreendedoras não bem sucedidos entremos na situação atual. Ao contrário do que acontecera anteriormente, quando as pessoas tinham dificuldades para tocar seus negócios por falta de apoio público, hoje existe um programa especifico amparado na Lei Geral de Micro e Pequenas Empresas, cujo objetivo é incentivar, orientar e financiar projetos de pequenos e médios empreendedores.

    Ótimo, com essa iniciativa de apoio governamental torna-se mais fácil o acesso a recursos financeiros, bem como a apoio técnico, para quem queira se estabelecer em determinadas atividades voltadas para os setores de serviços, agroindústria, indústria, educação, saúde, entre outros.

    Até aí tudo muito bem, mas é importante salientar que a etapa seguinte, pós instalação dos empreendimentos, é a fase mais importante para que os negócios sigam em frente, sem riscos de alguém encerrar suas atividades por absoluta falta de assistência técnica, entre outros serviços de assessoria de caráter gerencial.

    É verdade a maioria dos empreendimentos têm o olhar voltada para o mercado local. Acontece que o mercado doméstico tem um tamanho definido que por sua vez limita o crescimento do empreendimento. Neste caso para que os negócios tomem a direção de uma linha de expansão, faz-se necessário buscar novos mercados em áreas próximas ou mesmos distantes.

    Em meio a tudo isso surge uma pergunta: o município está preparado para atender os serviços básicos de apoio técnico, gerencial, entre outros, a esses novos empreendedores? Ah sim, o Sebrae poderá atender em parte as demandas em questão, mas sozinho não pode atender a todos porque os recursos humanos disponíveis são limitados, não é?

    Neste caso, cabe ao município através da sua secretaria de indústria e comercio contratar e disponibilizar técnicos para que juntamente como o Sebrae possa assegurar os serviços indispensáveis a sobrevivência dos novos empreendimentos que estão a surgir. Caso contrário será mais um ciclo de empreendimentos a passar, assim como os demais passaram e deixaram pra trás um rastro de dívidas a pagar.

    Não é isso que desejamos, mas compete-nos fazer as advertências necessárias para que os esforços e sonhos de pessoas bem intencionadas não se transformem em pesadelos. Se as coisas não derem certas é ruim para os investidores, muito pior será para a economia do município, que há muito tempo está a caminhar em marcha lenta, quase parando, porquanto os municípios vizinhos a cada ano que passa robustecem cada vez mais suas respectivas economias.

    João Pessoa, 02 de Agosto de 2014
    Ignácio Tavares