Radio Liberdade

Pombal, 16 de janeiro de 2018 - 07:23

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Inacio Tavares

Coluna Recordação por Inacio Tavares

Inacio é Economista. Colunista da Liberdade FM onde escreve sobre vários temas. CONTATOS: itavaresaraujo@yahoo.com.br



  • "Corrupção, uma leitura doméstica"

    Publicado em 06/12/2017

     A sociedade não é mais do que o desenvolvimento da família: se o homem sai da família corrupto, corrupto entrará na sociedade. (Henri Lacordaire)

    Como bem anuncia o francês Jean-Baptiste-Henri Dominique Lacordaire, o embrião da corrupção pode estar na família. E essa afirmativa do religioso nos arrepia pelo chamamento à reflexão que nos toma de sobressalto. Até então apontamos a corrupção como uma criação exógena.

    Uma construção que se dá de fora para dentro das nossas vidas. Daí a reflexionarmos sobre a possibilidade dessa mazela nascer nos lares é assustador. Afinal, quando começamos a concebê-la?

    O nosso país vivencia um instante de assombramento. Em sua curta história o Brasil já corre o risco de tornar a corrupção um “patrimônio imaterial da nossa cultura”. São mais de quinhentos anos de favores, gentilezas, jeitinhos que permeiam - quando não conduzem - as relações em sociedade.

    Isto remonta ao descobrimento quando Pero Vaz de Caminha encerra a Carta do Achamento com um pedido, uma graça, uma mercê solicitada a El-Rei D. Manuel que transcrevo: “- (...) a Ela (Sua Alteza) peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro -- o que d'Ela receberei em muita mercê”.

    Outro fato reside em quando ao chegar ao Brasil, em 1808, D. João VI foi “presenteado”, por um traficante de escravos com a melhor casa da Quinta da Boa Vista, localização privilegiada do Rio de Janeiro, o que garantiu ao doador Elias Antônio Lopes a pompa de “amigo do rei”, seguida de todas as benesses de que possa usufruir tal intimidade.

    Contudo, a corrupção não está em nenhum código genético, não é exclusividade de nenhuma nação. É um atributo do comportamento humano que pode ser desenvolvido ao ser estimulado, ou retraído ao ser enfrentado. Cabe a nós, em nossos lares determinarmos os desdobramentos dessa condição.

    Sócrates nos alerta que “é mais fácil corromper do que persuadir”. Vejamos, em casa compramos o desempenho escolar dos nossos filhos com presentinhos. Cobramos o bom comportamento em troca de promessas (ou ameaças), com isso orientando-os, de forma irrefletida, a manter um comportamento semelhante na sua vida íntima e em sociedade.

    A corrupção tem, sim, sementes no seio familiar e se não mudarmos a mente e as atitudes ela continuará a crescer e dar frutos. Estamos a colhê-los neste instante em nossa estupefata pátria.

    Devemos educar nossos filhos para serem os futuros dirigentes da nação. Devemos guiar-lhes os passos enaltecendo e alimentando as suas qualidades competitivas embasadas na moral e no bem comum, ao mesmo tempo em que reforçamos as suas defesas diante das fraquezas materiais e egoísticas.

    Regar-lhes, dia após dia, o respeito e o amor pelo próximo, instruindo-lhes na consciência do dever cívico como compromisso público maior, para o qual todos devem estar prontos a assumir a qualquer tempo e hora. E nunca, nunca mesmo, conceituar-lhes a missão política como vergonhosa ou de homens de má índole. É disso que a corrupção se alimenta e é isso que nos mantêm distanciados das decisões importantes para nossa nação.

    Precisamos esclarecer-lhes que este país foi construído de cima para baixo. Onde as massas populares não opinaram. Num passado recente, maior parte da população não teve acesso à educação. Ainda sofremos essa consequência no presente.

    A corte portuguesa desembarcou em uma terra com 99% de analfabetos, em 1808. Esse número só diminuiu 10% em 1889, ano da Proclamação da República. Só quebramos à metade em meados da década de 1950. Portanto muito dos desvarios governamentais, entre eles a corrupção, está plantada nessa herança maldita da não participação do povo nas decisões.

    Finalizando, o psicólogo e jornalista Luiz Hanns nos aponta a corrupção em três aspectos: sistêmica, sedimentada no mau caráter das pessoas e suas consequências; endêmica, por estar capilarizada em toda a sociedade, e a sindrômica que repousa sobre a burocratização excessiva do país como fator aliciador do “jeitinho brasileiro”.

    Assim, acreditamos que o combate ao mal deve acuar esses três níveis simultaneamente com a certeza de que não é um presidente, um governo, que fará isso sozinho. A família é o berço onde devemos horrorizar o racismo, a homofobia, a intolerância e toda e qualquer forma de “arrumadinho” que gere vantagens indevidas.


  • "Minhas aventuras no Piancó"

    Publicado em 10/09/2014

    Esta é uma estória da minha adolescência que vez por outra matraqueia a minha memória. O cenário do acontecido são as águas barrentas do Piancó, principalmente nos anos de transbordo de suas calha.

    Isso mesmo, a barragem de Mãe D’água ainda não havia sido construída. As cheias do Piancó aconteciam com mais frequência, portanto, bastava uma chuva grande à montante da bacia do Açude de Coremas, para que o Rio transbordasse, invadindo a Rua de Baixo, às vezes até a rua do Comércio.

    Eu gostava dessa situação, pois, quanto mais cheio estivesse o Rio maior era a festa da meninada da Rua do Comércio. Para nós, naquela época, nadar nas águas barrentas do Piancó era a melhor diversão.

    Os lugares mais frequentados para os nossos banhos diários era a pedra da sedan, a pedra redonda e o buraco de Zé Bispo. Mas, o grande desafio era avançar Rio adentro em épocas de cheias.

    Dão, primo e amigo, era o companheiro de aventuras quando das nossas incursões, escanchados sobre possantes cavaletes, nas águas barrentas do Piancó.

    Devia ter cerca de doze anos e o primo perto dos dezoito. O meu irmão Felix não era muito de enfrentar as correntezas do Piancó, a não ser de canoa. Nunca foi um bom nadador, por isso evitava enfrentar os trambordos do Piancó.

    Assim sendo, ao lado do primo Dão, cada um com um possante cavalete, desafiava as águas do Rio, principalmente quando estavam a invadir a Rua de Baixo.

    Quanto mais cheio estivesse o Rio maior era a emoção de descer correnteza abaixo, escanchados nos cavaletes pertencentes ao tio mestre Álvaro. Era uma diversão e tanto.

    Os riscos não eram poucos, posto que os remansos bravios, corredeiras velozes, ameaçavam os nossos cavaletes. Balseiros que desciam no Rio nos preocupavam, pois, quase sempre havia cobras ávidas de um porto seguro para desembarcar.

    Eu e o primo virávamos como podíamos. Conhecíamos os melhores caminhos através dos quais era possível chegar ao sítio da minha avó, entre outros lugares, sem o risco de afogamento ou mesmo de sermos picados por cobras peçonhentas a espreitas nos balseiros passavam ao nosso lado.

    Na época das grandes enchentes, nem mesmo o mais habilidoso dos canoeiros aceitava enfrentar a fúria das corredeiras do Piancó. Isso era muito bom pra a gente, porque somente nós dois podíamos chegar ao outro lado do Rio.

    Ficávamos por dono de tudo. Passávamos pela roça de Dozinho, fazíamos uma limpeza nas pinhas maduras. Na roça de tio Marcionilo, o que havia de melancia, melão, a gente passava as mãos.

    Quando o Rio baixava todo mundo tomava seus lugares. Marcionilo ao chegar à ilha, onde estava situada a sua roça, sentia a falta das melancias e dos melões. Ao se encontrar com a gente indagava: ¨ô dãozinho, passaram na minha roça e comeram as melhores melancias e os melhores melões. “Ah, danadinhos”!

    Continuava: “não sei dizer quem fez aquele estrago, porem uma coisa me chama atenção: foram duas pessoas, um adulto e um menino. Não quero dizer que tenha sido você e Inacinho de Lourdes, que sempre lhe acompanha nas caminhadas pela beira de rio, por ocasião das enchentes. Agora, os rastros dão certinhos com os pés de vocês. Que coincidência, não é dãozinho”?.

    Dão dava uma boa gargalhada ante a desconfiança de Marcionilo. Apesar da nossa negação, sabíamos que, o velho tinha certeza de que fomos nós mesmos os autores do estrago. Na calçada da casa do meu tio Cândido, onde todos se reuniam pra conversar, sobre coisas do dia-a-dia, Marcionilo queixava-se dos piratas de Dona Ana. Uma referencia a nós dois.

    Nossas traquinices não se restringiam tão somente as roças de Dozinho e Marcionilo. Às vezes a gente descia até o poço do redondo e visitávamos a roça de Jorge Bispo, em busca de pinha madura. Éramos os reis do Rio.

    Quanto mais águas melhor pra a gente. Enfrentávamos remansos perigosos, corredeiras, mas a nossa habilidade na condução dos cavaletes nos deixava muito a vontade para enfrentarmos as situações adversas.

    Quando o Rio voltava ao leito normal acabava a nossa brincadeira. Ficávamos a aguardar outras oportunidades pra começar tudo de novo. Só havia um lugar que a gente evitava a qualquer custo.

    Era descer rio abaixo para ver o encontro do Piranhas com o Piancó. Essa junção acontece lá na forquilha de dona Vitalina, matriarca da família Lacerda e Junqueira.

    Quando queríamos ver o grande espetáculo do encontro das águas do Piranhas e do Piancó, muito antes deixávamos nossos cavaletes e íamos a pés até o local. Valia a pena porque era uma luta cujo vencedor era o Rio com o maior volume d’água.

    O cavalete, usado para atravessar o Rio, no momento de grandes enchentes, era a nossa grande arma. Para quem não sabe, trata-se de uma tora de madeira, estreita, com a extensão de até dois metros, feito da raiz da Timbaúba. Esta árvore é nativa do sertão chega atingir até vinte metros de altura.

    Na roça de Jorge Bispo, vizinha ao sítio de Ana, a minha avó, havia uma dessa espécie, que viveu por muito tempo. Mas, de tanto se tirar raízes pra fazer cavalete, terminou morrendo.

    Naquele tempo não existia consciência ecológica, a exemplo de hoje. Ah se tivesse, com certeza a nossa Timbaúba estava firme, exuberante, a produzir os cavaletes de que tanto necessitam os ribeirinhos.

    A raiz da timbaúba tem a mesma composição do material que se usa na fabricação de cortiça, ou melhor, tampa de garrafa. Por ser leve, suportava muito bem o peso de uma pessoa sem submergir as águas do Rio.

    Não sei se ainda existe algum exemplar dessa árvore ao longo da beira do Rio. Se a espécie desapareceu, só tenho a lamentar porque a natureza ficou mais pobre, bem como, nós também.

    João Pessoa, 09 de Setembro de 2014
    Ignácio Tavares


  • O que virá depois de 2014?

    Publicado em 26/08/2014

    O brasileiro é assim: que chova ou faça sol, quando a economia entra em estado de crise acredita piamente que mais cedo ou mais tarde tudo voltará ao seu devido lugar.

    Isso significa dizer que somos dados a crença que depois dos desarranjos econômicos o país, naturalmente, emergirá para um novo ciclo de fartura e bonança. Acontece que nem sempre as coisas acontecem assim, mas tomara que aconteça.

    Isso mesmo, por isso vale a pena lembrar que essa cultura conformista é uma característica bem definida do nosso perfil de renitentes otimistas. Na verdade estamos sempre a apostar num futuro auspicioso com justa razão uma vez que, por trás desse otimismo exacerbado está o fato de sermos a sétima economia mais importante do mundo.

    Mesmo respeitando esse estado de espirito do nosso povo torna-se indispensável fazer a seguinte pergunta: por quanto tempo o Brasil se manterá nessa invejável posição no cenário econômico mundial?

    Esta é uma pergunta que fumega nas discussões acadêmicas, a envolver as diversas tendências do pensamento econômico que rege as grandes decisões na condução da economia na atualidade.

    É quase consenso de que essa confortável posição da economia brasileira a nível mundial, não sobreviverá por muito tempo, justo por conta do seu medíocre desempenho observado na era do real, com destaque para os três últimos anos.

    Desse modo, a partir do momento que as economias da Europa, como a França, Itália, entre outras, retomarem o crescimento, com certeza haver mudanças no ranking das mais importantes economias do planeta.

    Noutras palavras, quero dizer que a economia Brasileira cresce, porém, a percentuais decrescentes. Em 2010, ainda no governo de Lula, o PIB cresceu 7,5%, mas, nos anos subsequentes esse espetacular percentual não se repetiu, pelo contrário foi reduzido a níveis insignificantes. Por exemplo, agora em 2014 estima-se que o referido agregado poderá crescer entre 1 e 0%.

    É verdade que este pífio crescimento esperado para este ano em curso é um reflexo do esgotamento do modelo econômico posto em prática pelo governo atual. Como estou a falar, os índices de crescimento observados nos últimos anos não têm sido capazes de fazer a economia crescer a níveis compatíveis com as necessidades de firmar o Brasil como a sétima economia mais importante do mundo, claro, num horizonte de longo prazo.

    Desse modo mudar é preciso. É verdade que promover a mudança de rumo do crescimento da economia é uma meta difícil de ser alcançada. Há muitas pedras no caminho que precisam ser removidas para que as coisas aconteçam.

    Uma dessas pedras é o baixo nível da poupança nacional que hoje gira ao redor dos 15%, quando no mínimo deveria estar em torno dos 25%. A esse nível de poupança a economia poderia crescer a um ritmo de 4,5 e 5% ao ano, de forma continuada, o que será o ideal para manter o Brasil no cenário mundial com potência econômica emergente.

    Faço uma oportuna pergunta – dos três candidatos mais competitivos qual deles apresenta melhores propostas no sentido de remover os obstáculos que impedem a economia crescer no ritmo desejado? Esta pergunta no momento não temos como responde-la, posto que, até o presente nenhum dos candidatos abriu o seu portifólio de propostas para fazer a economia retomar a rota do crescimento, num horizonte de longo prazo.

    Quanto a candidata oficial não alimento qualquer esperança de mudanças nos rumos da política econômica, uma vez que teve tempo de sobra pra fazê-lo e nada fez. Pelo contrário as suas intervenções equivocadas na economia agravou cada vez mais a situação.

    Os dois demais candidatos, inclusive Marina que acaba de ser guindada a condição de candidata após a morte de Eduardo Campos, prometem mudar os rumos dos instrumentos que regem a economia brasileira no sentido de assegurar um novo ciclo de crescimento.

    Isso mesmo, os candidatos das oposições falam de forma genérica o que não nos permite entender quais os instrumentos macroeconômicos de ação governamental serão adotados nos seus respectivos governos, casa um ou outro seja eleito.

    Diante dessa situação cabe a indagação: o que nos reserva 2015 em termos de expectativa de mudanças, para melhor, na economia Brasileira? Só nos resta apostar para que tudo dê certo, o que será bom pra nós, por conseguinte para o Brasil.

    Ignácio Tavares

    João Pessoa, 26 de Setembro de 2014