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Onaldo Queiroga

Coluna Crônicas por Onaldo Queiroga

Onaldo Queiroga é pombalense - Juiz da 5ª Vara Cível da Capital - Escritor de vários livros. CONTATOS: onaldoqueiroga@oi.com.br



  • NOVA CRÔNICA: "O nada: um poder tão feroz que aniquila sonhos e vida"

    Publicado em Jul 16, 2015

    Quando nos referimos ao vocábulo “nada”, logo vem a idéia de que o nada é algo inofensivo, que não causa prejuízo algum e que não interfere nas nossas vidas.

    Ledo engano. O nada tem um poder destrutivo tão feroz que aniquila sonhos e vidas. Algumas pessoas entendem que o nada está afeto à personalidade dos covardes, daqueles que não assumem posições e vivem em cima do muro. De outro lado, tem quem diga que muitos se utilizam do nada propositadamente para provocar situações vexatórias, constrangedoras e até mesmo dolosamente detonar projetos de outrem, apenas e simplesmente pelo sentimento da inveja.

    Se existem pessoas que se notabilizam pela coragem de assumir posições fortes e enfrentar intempéries, outras se escondem sob o manto do nada. Não assumem posições, não têm coragem de colocar as cartas na mesa e de público dizer qual o caminho que vão seguir.

    Esses sentam na beira da estrada, assistem ao caos se instalar e até mesmo diante de sua inércia contribuem com a implantação da desordem, quando na verdade a chave para a solução do problema está na sua própria mão.

    Fico assim a imaginar quando uma pessoa com essas características assume um cargo de destaque. O nadaísmo transformará a credibilidade em descrédito, a confiança em desconfiança, a eficiência em ineficiência, a normalidade no completo caos.

    É possível até se visualizar o ápice do nada, que aflora em decorrência de pessoas que talvez sofram de obnubilações, que se deixam levar pelo deslumbramento e passam a ser guiados por uma confusão mental que dificulta a conexão de pensamentos e, com isso, se socorrem, infelizmente, do nada como nutriente da sua própria existência.

    O nada, que tem como combustível a inércia, não tem o direito de obstruir ou dilapidar o sonho de ninguém. Emmanuel nos ensina que: “Ninguém possui medida bastante capaz, a fim de avaliar as dificuldades alheias”. Porém, sabemos que a humanidade está cansada daqueles que lavam as mãos e se refugiam sob o manto do nada.

    O nada, com seu silêncio, é algo muito perigoso, sucumbe a felicidade e esmorece a coragem. É preciso que o homem tenha o desassombro de agir, buscando o bem como prioridade, pois errar involuntariamente é compreensível, tendo em vista que é no erro que se aprende.


  • "O menino e o engenho"

    Publicado em May 7, 2015

    A Fazenda Nova Acauan, situada no município de São Domingos foi palco da infância do meu pai.

    Foi nesse tempo, que num certo dia, o menino Toinho, o filho caçula de Vicente e Olívia, deitado sentiu o frio da madrugada se despedir, dando lugar ao calor do sol nascente.

    Com o pé na parede, balançava a rede, vendo a luz do sol surgindo lentamente pela fresta da janela. Ao seu ouvido, chegava o canto forte dos galos que anunciavam o nascer de um novo dia.

    Ouvia o barulho dos galhos das árvores, o movimento da passarada e o canto mágico dos sabiás, dos galos-de-campina e das rolinhas entoando “fogo pagou”.

    Do curral, o som do mugido do gado e o aboio do vaqueiro Vicente Benvindo, que já tangia as reses para a pastagem. Ouviu o barulho da vassoura, nas mãos de Maria Pequena, a varrer o terreiro.

    Do alpendre, o resmungo de Chicotó. Da cozinha, a voz altiva de sua mãe, Olívia, que avisava: - “A mesa encontra-se posta!”. Vicente, seu pai, na calçada, de posse de um tamborete, encostava-o à parede lateral da casa-grande, para contar lorotas aos moradores. Era mais uma alvorada que invadia a alma do menino. Abençoado pelo céu do sertão, ele levantou, pediu a bênção ao seu pai e dirigiu-se à cozinha. Sentou a mesa e, na companhia de seu irmão Dedé, tomou café, comeu cuscuz e tapioca.

    Do batente da porta da cozinha olhou o horizonte. Com o irmão seguiu em direção ao engenho. Era tempo de moagem. Era tempo de colher a cana-de-açúcar, de levá-la à moenda para a produção da rapadura, do alfenim, da garapa e do seu mel.

    Quieto assistiu às moendas, puxadas pelos bois Remanso e Correnteza, moerem as canas. Sentiu o calor da caldeira; beliscou um pedaço de alfenim puxado por Maria Pequena. Antônio Menano colocou o caldo da cana-de-açúcar na fornalha.

    Viu o mestre Biró Machado comandar o serviço da caldeira em companhia de Zé Cilino. Ele mexia a garapa para lá e para cá, até identificar o ponto certo para fazer a rapadura. O serviço era pesado. O calor era intenso. O menino ficou ali por um bom temporariamente a olhar àquela engrenagem.

    O tempo andou e o fez caminhar pela vida. Enfrentou tristezas e viveu alegrias. O tempo passou e o menino se fez vetusto. Em solilóquio, questionou: - “O que fizeram com a junta de boi manso? Na direita, o Remanso. Na esquerda, o Correnteza. Velho engenho! Solitário, tão esquecido e cansado de moer cana. O tempo quis apagá-lo do meu destino. Mas, depois de tantos mundos percorridos, movido pela saudade, eu voltei para espanar a poeira do ocaso e no girar de tuas destemidas moendas vencer contigo os obstáculos e escrever um novo tempo”.


  • "Porões"

    Publicado em Mar 6, 2015

    Existem lugares que foram criados para guardar ou esconder alguma coisa. São muitos esses lugares, mas há um que chama atenção no roteiro da humanidade. Trata-se do porão.

    Na seara náutica, consiste na parte mais baixa do interior de uma embarcação, onde se acomoda a carga a ser transportada. Também pode ser visualizado, o porão, no português brasileiro, como aquele local compreendido entre o chão e o soalho da casa, destinado também à guarda de objetos daqueles que residem no imóvel.

    Mas, como no início as casas eram montadas com pisos de pranchas de madeira, colocadas em travessas que sempre deixavam espaços vazios entre o soalho e o chão, então, emergiam sons com tons de horror, decorrentes daqueles gemidos do soalho e também gerados pelo ambiente oco do porão.

    Esses aspectos fizeram com que a maldade humana elevasse o porão a um dos locais mais abomináveis da face da terra. O porão, diante disso, foi associado a sinônimo de tortura, de horror, de pânico e de uma espécie de império do medo.

    A história tem registros sinistros de crueldades praticadas nos porões criados pelo homem. No início do Século XXI, quando pensávamos que o homem havia aposentado o porão como ambiente nefasto, afloram diversos casos, onde cidadãos, aparentemente normais, usavam o porão de suas residências para aprisionar, por anos, pessoas que ali viviam sob o silêncio da tortura e do medo. Sequestradas e segregadas, ficaram anos e anos sob o jugo do algoz torturador.

    Geraram filhos, que nasceram do pânico e passaram a sobreviver alimentados pela fobia, temor e pavor. Monstros travestidos de pessoas “normais”, mas, na verdade, tem perfis de psicopatas, que, friamente, se conduziam como trabalhadores e pessoas de bem, um cobertor acima de qualquer suspeita para seus atos criminosos.

    Na antiguidade, as embarcações levaram em seus porões náuticos sentenciados a remar até a morte. Infelizmente, hoje esse porão não fora aposentado para a prática dos desvarios do homem. O Mar Mediterrâneo que o diga. Hoje, é palco de um porão de um novo holocausto, onde milhares de pessoas abandonadas pelos poderosos sucumbem em meio ao terror do sol escaldante, da fome extrema e das furiosas ondas desse mar tortuoso, que os engolem sem piedade.

    Há um porão maior. Um que habita o âmago da humanidade. Não é à toa que Carlos Roberto Sabbi expressa que: “A maldade habita invisível e furtivamente o porão de cada ser humano”. Se alguns homens são ratos de porão, é preciso, então, que eles revisem as veredas do pensar e agir. Levemos para o porão a inveja, o ódio e a soberba. Vivenciemos a fé e o amor.