Radio Liberdade

Pombal, 23 de fevereiro de 2017 - 13:06

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Onaldo Queiroga

Coluna Crônicas por Onaldo Queiroga

Onaldo Queiroga é pombalense - Juiz da 5ª Vara Cível da Capital - Escritor de vários livros. CONTATOS: onaldoqueiroga@oi.com.br



  • "A madrasta estiagem"

    Publicado em 08/02/2017

    Entra ano e sai ano, dias e noites e a estiagem faz morada no meu sertão. Fêmea impiedosa que seduz o sol para bem perto do chão, para intensamente beber a água dos riachos, açudes e barragens.

    Ventos sopram e levantam poeiras abrasadoras, que devoram plantações, animais e homens. Desvanecem a paciência, a esperança e sonhos. Transformam o verde num deserto mundo de olhares perdidos. Como é piedoso acordar sob o vento cortante da estiagem. Sem chuva, com fome e sede, o caboclo da rede balança o desânimo. Menino chora, mulher reclama e um cachorro de olhar piedoso dorme debaixo da mesa. Da janela, céu limpo, terra rachada e uma vaca esquelética a espera da morte chegar.

    A seca é assim, um imenso mundo cinzento. Um tempo de desolamento, esquecimento e miséria. O sertão dos verdes pastos esmorece diante da falta d’água, e, o povo, por sua vez, tem que suportar a fúria da natureza imposta pela seca.

    Em 2013, escrevi um texto onde afirmei que aquele ano se iniciava com a dor da estiagem e que era preciso fé e acreditar que Deus jorraria água sobre o Nordeste. O tempo passou e nada de chuva. Vivenciamos hoje uma das maiores estiagem da nossa história. Jamais imaginei ver Coremas virar lama. Sem água, Campina Grande pede socorro. Aliás o Nordeste.

    É inaceitável que em pleno Século XXI estejamos fugindo de problemas seculares. Se não choveu o esperado, inegável que também deixamos de ter um planejamento eficaz para chegarmos onde chegamos. A falta não é só de chuva, é educacional, cultural e de compromisso em equacionalizar definitivamente tais questões através de política hídrica capaz de sepultar tais males.


  • "70 anos da Asa Branca"

    Publicado em 16/01/2017

    Há muito tempo, nos bancos de areia do Rio Pajeú a manhã da estiagem acordou mais cedo. Descortinou um céu azul e um sol intenso. Secou riachos, rios e açudes esturricando o chão.

    O gado de sede deitou a morte esquelética. Silente, a passarada bateu em retirada, anunciando a seca. O sertanejo no apanho do algodão entoava uma cantiga dolente: “Asa Branca bateu asa. Foi simbora do sertão. Lá, ra, ra, não chore não. Asa Branca foi simbora do sertão”.

    Numa dessas estiagens, seu Januário em 1905 deixou Floresta-PE, mas levou consigo, para as margens do Riacho da Brígida, a cultura da Asa Branca. Lá no Araripe, com seu fole de 8 baixos, cantarolava dolentemente a saga dessa ave para seu menino Luiz Gonzaga. Um dia o menino vestiu-se de Asa Branca. Retirante saiu numa légua tirana, deixando sua terra para correr o mundo.

    Passou por guerras, mas nenhum tiro disparou. No seu vôo avistou um Rio de Janeiro. Sua sanfona já começava a entoar saudade do seu torrão. Lá encontrou um poeta de alma franca e com olhar de esperança, Humberto Teixeira, filho do Iguatu-CE. Luiz e Humberto, em março de 1947 resolveram cantar a história da Asa Branca para o mundo.

    Foi assim, que essa “cantiga de eito, de apanha de algodão” bateu asas e lentamente tornou-se símbolo de um povo. Setenta anos de toada, de história oficial de letra e de música, de uma bandeira da paz. Sem Luiz e Humberto, hoje em vôo solitário, parafraseando Dálton Vogeler ela entoa: “quando o verde dos teus óio se espaiá na prantação. Uma lágrima dorida vai moiá todo o sertão. No cantar do Assum Preto, vai se ouvi máguas e dô: Ribaçã morrê de sede com saudade do doutô. Foi se embora a asa branca; lá pro céu ela levô os poetas de almas francas, que todo mundo cantô. Meu padrinho Padim Ciço, faça deles seus assessores. Morrem os homens ficam os nomes.”


  • "Adeus 2016"

    Publicado em 30/12/2016

    Encerra-se mais um ano, mais um período de nossas vidas. É hora do adeus ao ano de 2016 e logo estarão adormecidos seus acontecimentos bons e ruins.

    Perdemos entes queridos que nos deixaram saudades, muitos sonhos também ficaram pelo caminho, mas alcançá-los todos de uma só vez não seria razoável, já que eles são combustíveis que impulsionam nossas vidas.

    O fim de um ano marca o encerramento de um ciclo, de mais uma etapa de nossas vida, onde suportamos tristezas, perdas e decepções. Mas é diante da dor que devemos apreender a lição de Emmanuel que nos ensina: “Não bastará sofrer. É preciso aproveitar o concurso da dor, convertendo-a em roteiro de luz. A esperança é a filha dileta da Fé. Ambas estão, uma para a outra, como a luz reflexa dos planetas está para a luz central e positiva do sol”.

    Nunca se falou tanto sobre desarmonia familiar, drogas e crimes. O certo é que Deus nos ensinou o caminho do bem, mas se preferimos a destruição da natureza, irracionalmente estamos destruindo a nossa própria existência. 2016 foi um ano como os outros, de desastres, perdas e desencantos profundos diante da corrupção, mas, inegavelmente que serviram e servem para mostrar o caminho correto a ser seguido.

    Não podemos negar que vivemos momentos de alegria e novas amizades. Tudo serviu para renovarmos a fé, a esperança e o amor. Devemos ser como os sábios: que compreendem as incompreensões, que entendem e sabem conviver com os desentendimentos, e que na escuridão do materialismo acedem a luz espiritual para guiá-los ao encontro da paz.

    Adeus 2016, que venha 2017 e com ele a consciência de que com solidariedade e fé teremos condições de mudar e abraçarmos a paz. Que Deus tenha paciência e continue a iluminar o homem!