Radio Liberdade

Pombal, 24 de outubro de 2017 - 09:21

Publicidade



Onaldo Queiroga

Coluna Crônicas por Onaldo Queiroga

Onaldo Queiroga é pombalense - Juiz da 5ª Vara Cível da Capital - Escritor de vários livros. CONTATOS: onaldoqueiroga@oi.com.br



  • NOVA CRÔNICA: "O desuso como efeito do tempo"

    Publicado em 19/10/2017

    A dinâmica da vida impõe mudanças e coisas que outrora eram modernas se transformaram em ultrapassadas ao ponto de caminharem para o desaparecimento.

    Quantas profissões já foram tão importantes e hoje sumiram no curso da nossa caminhada. Telefone era coisa rara. Cidades do interior tinham uma central telefônica e os moradores mais abastados possuíam ramais, com os quais se comunicavam, mas necessitavam da intervenção da central, do operador telefônico para realizar chamadas internas e externas.

    O morador que não tinha ramal ia até a central para o operador realizar a chamada, pagando ali o preço do serviço. Hoje, não há centrais telefônicas e o operador telefônico. O cidadão com seu celular se interliga com o mundo.

    Outras profissões caminham também para o desuso. O livreiro é uma delas. Tão significativa foi sua missão no evoluir da sociedade, pois num tempo distante, de forma itinerante, possibilitou que muitas pessoas comprassem livros viabilizando o conhecimento de tanta gente. Mas recentemente as livrarias se estabeleceram em quase todos os lugares e o livreiro itinerante foram se tornando raridade. Com a internet e os livros digitais, as livrarias e os livreiros passaram a sofrer um abalo enorme.

    O Globo noticiou a despedida do livreiro Chico, que há 40 anos vendia livros em Ipanema. Aqui em João Pessoa, tivemos a despedida do Assis, que por mais de 20 anos vendia obras jurídicas e literárias no Fórum da Capital. Já escolas falam em usar exclusivamente livros digitais. Obras digitais jamais serão como as de papel, pois estas não eliminam o amigo livreiro.

    No futuro teremos apenas livros digitais? Acho que não. O Exemplo é o disco vinil que continua vencendo fitas-cassetes, CDs, pen-drives e mídias digitais que se baixamos via intenet.


  • "O engasgo do trovão"

    Publicado em 17/10/2017

    Quem não tem a oportunidade de vivenciar a vida das cidades interioranas, realmente passa por essa vida, sem conhecer muitas coisas interessantes.

    Lá pras bandas da minha terra, tinha um contador de estórias que tornou-se notório pela capacidade criativa de narrar acontecimentos intrigantes e inusitados. Seu Lino, como era conhecido, não deixava nada sem resposta. Certa feita, numa roda de conversa foi indagado se já havia aprendido a dirigir o carro que comprara, respondeu: Claro, inclusive, essa semana passei na Serra de Santa Luzia, serra perigosa, fiz uma curva tão fechada que vi a placa traseira do carro. Com isso, todos silenciaram.

    Mas, seu Lino não se conteve e disse: Olha vocês viram a chuva de terça-feira da semana passada. Foi grande, trovão e relâmpagos demais. Eu estava no sítio. Noite escura quando começou o toró. Parecia que o mundo ia se acabar. Fechei as portas e janelas, mesmo assim, quando relampeava clareava a casa toda e, depois, o trovão sacudia as paredes.

    E continuou: De repente amigos, veio um relampo demorado. Parecia dia, clareou tudo por uns três minutos. Passado o relâmpago, cadê o trovão? Um, dois, três, cinco, dez minutos e nada do trovão. Então, abri um pouco a janela. Vi uma vasta moita de marmeleiro toda se balançando e com luzes que mais pareciam milhares vaga-lumes.

    Pensei comigo: Será que o trovão ficou engasgado ali? Peguei uma vara e fui até a moita. A catuquei com a vara. Menino! Era o trovão, o bicho explodiu, parecia o fim do mundo, a terra tremeu e fui sacudido com dois quilômetros de distância. Mas o bom foi que o danado ainda falou comigo, me agradecendo por desengasga-lo.

    Eita cabra contador de estória!


  • "A Chaminé da Brasil Oiticica"

    Publicado em 27/09/2017

    Fundada em 1934, a Brasil Oiticica, indústria oriunda do Ceará, em pouco mais de 50 anos de existência conseguiu exportar mais de U$ 22 milhões de dólares, até que, no ano de 1987, teve decretada sua falência.

    Não sei a data da sua instalação em Pombal. só me recordo que era a sua chaminé, com seu inconfundível apito, que, ainda, quando eu era criança pontuava o cronograma diário da minha vida. Eu acordava sob o som daquele apito, levantava-me e abraçava mais um dia feliz. Às 11 horas, novamente, seu som anunciava a parada laboral para o almoço.

    Ao bater 13 horas, mais uma vez apitava, sinalizando o início do turno da tarde. Com o crepúsculo, a velha chaminé deitava o dia e nos entregava aos encantos da noite sertaneja.

    Após a falência, a fábrica em Pombal tornou-se escombro. O tempo passou e sua estrutura física foi ao chão, dando lugar a um loteamento, com exceção da Chaminé, que só ficou de pé, graças a um movimento realizado por inúmeros filhos de Pombal, com o escopo de impedir a derrubada.

    Hoje, encravada numa praça do loteamento encontra-se silente, pois não mais acorda, nem deita seus filhos através do seu apito. Mas, sua presença constitui marco histórico a ser preservado, como incentivo à cultura. Lembremos de que a Europa ainda hoje mantém intactos os seus monumentos históricos, que são os principais mobilizadores do turismo, alavancadores de divisas, fortalecendo, firmemente, a estrutura socioeconômica desse importante continente.

    Quando volto a Pombal, a encontra de pé, exuberante. Ainda ouço seu apito, pois basta vê-la, que lá no fundo d'alma escuto seu apito me convidando para viver mais uma manhã, uma tarde e uma noite de sonhos.