Recebo com profunda tristeza a notícia do falecimento do Professor Arlindo Ugulino, figura maior da vida intelectual, jurídica e cultural de Pombal e da Paraíba.
Perco um mestre do tempo em que fui seu aluno no Colégio Estadual de Pombal, perco um confrade querido da Academia de Letras de Pombal e o sertão perde um de seus intérpretes mais sensíveis.
Arlindo Ugulino foi homem de rara estatura moral e intelectual. Brilhante advogado e promotor público, professor universitário respeitado, educador por vocação e poeta por natureza, reuniu em si a disciplina da lei e a delicadeza da palavra.
Em cada função que exerceu, deixou marca de dignidade, retidão e compromisso com o bem comum.
Foi professor do Colégio Diocesano de Pombal, da Escola Normal Josué Bezerra e da Faculdade de Direito de Sousa, além de ter sido o primeiro diretor do Colégio Estadual de Pombal, hoje Escola Estadual Arruda Câmara.
Em todas essas casas de ensino, não foi apenas transmissor de conteúdos, mas formador de consciências, referência ética e presença respeitada.
Foi também um dos fundadores da Academia de Letras de Pombal, instituição que ajudou a erguer não apenas com o nome, mas com presença, trabalho e amor pela cultura. Como confrade, era exemplo de sobriedade, escuta e respeito. Como poeta, era voz do sertão, da infância, da fé, da paz e da condição humana.
Descendente direto de uma das mais importantes linhagens da poesia popular nordestina, Arlindo Ugulino era bisneto de Ugolino Nunes da Costa, o lendário Ugolino do Sabugi, que, ao lado de seu irmão Nicandro Nunes da Costa, formou a dupla pioneira da cantoria de viola no Nordeste brasileiro.
Nascidos em Teixeira, na Paraíba, Ugolino e Nicandro são reconhecidos como os primeiros grandes cantadores do Brasil, precursores da poesia repentista e responsáveis pela afirmação do repente como arte, ofício e tradição cultural.
Professor Arlindo carregava esse sangue poético com consciência e honra, transformando herança em obra, linhagem em missão, memória em escrita.
Sua poesia, reunida no livro Este é o Meu Sertão: Pessoas, Fatos e Paisagens – em Prosa e Verso, é testemunho dessa fidelidade às raízes. Em poemas como “A Gota de Suor do Sertanejo”, “A Morada da Paz”, “Infância”, “O Sorriso” e “A Lágrima”, ele revela o sertão não como estereótipo, mas como território de humanidade, fé, luta e ternura.
Sua escrita é limpa, clássica, emotiva, sem excessos, fiel à alma simples e profunda do homem nordestino.
Não é por acaso que Otacílio Batista, monstro sagrado da poesia do sertão, o definiu com precisão lapidar:
“ARLINDO é tão importante,
Esta figura fiel,
Tem diploma de doutor
E anel de bacharel,
Mas o anel não lhe honra,
Ele é quem honra o anel!”
Essa quadra resume o homem. Não foi o título que o engrandeceu, foi ele que engrandeceu os títulos.
Hoje, a Academia de Letras de Pombal se curva em respeito. O Colégio Estadual perde um de seus diretores mais dignos. A universidade perde um mestre. O Ministério Público perde um servidor exemplar. A literatura nordestina perde um poeta verdadeiro. E eu perco um professor, um confrade, uma referência.
Arlindo Ugulino não partiu. Ele se recolheu à morada da paz que ele mesmo cantou.
Ficou na palavra, ficou na memória, ficou no sertão que tanto amou.
Descanse em paz, Professor.
O seu nome já é herança.
José Tavares de Araújo Neto
Confrade – Academia de Letras de Pombal
