No meu tempo de criança, na década de 1960, a riqueza de um menino não se media pelo preço dos brinquedos, mas pela criatividade. As ruas empoeiradas da Rua de Baixo, em Pombal, e as águas do Rio Piancó eram o nosso reino encantado.
Entre gargalhadas, corridas, banhos de rio e joelhos esfolados, qualquer lata, pedaço de madeira ou roda velha ganhava vida nas mãos da meninada. A imaginação transformava sucata em tesouro e a rua em um mundo sem limites.
Foi ali que vivi alguns dos momentos mais felizes da minha infância. Ao lado de meus irmãos e dos companheiros da vizinhança, inventávamos brincadeiras que pareciam não ter fim.
Meu maior orgulho era um carrinho feito com uma lata de Toddy. Ela havia chegado às minhas mãos por meio de meus primos, filhos de um tio que trabalhava no DNER. Todos os meses, ele recebia uma feira da cooperativa dos funcionários, na qual vinha aquele produto raro nas mesas das famílias pombalenses, sobretudo entre os moradores da Rua de Baixo.
Depois de vazia, a lata virou carrinho. Bastaram um arame, um barbante e muita imaginação. Enquanto a maioria dos meninos usava latas de óleo de soja, eu ostentava, orgulhoso, o meu carrinho pelas ruas empoeiradas da Rua de Baixo.
Na minha cabeça de menino, ele era de fazer inveja até a Hermínio Neto, filho de Paulo Pereira, considerado o homem mais rico de Pombal.
Eu me sentia como se estivesse ao volante de um reluzente Ford Galaxie. Tinha a impressão de que todas as meninas da rua olhavam para mim, inclusive a filha da lavadeira, que eu considerava a mais bela da Rua de Baixo.
Ao recordar essa cena, sorrio. Uma simples lata vazia me fazia sentir rico. O verdadeiro luxo, porém, não era aquele carrinho de Toddy.
Era ter meus irmãos, meus amigos, a Rua de Baixo, o Rio Piancó e uma infância em que a felicidade cabia dentro de uma lata presa a um barbante.
As melhores lembranças da vida quase sempre nascem das coisas mais simples.

José Tavares de Araújo Neto
Confrade – Academia de Letras de Pombal
