
Um julgamento mais justo e um recomeço no Brasil. É isso o que a família de Robson Oliveira espera desde que o brasileiro foi preso na Rússia em março de 2019 sob acusação de tráfico internacional de drogas. Robson entrou no país com duas caixas de remédios que possuem cloridrato de metadona, substância proibida em território russo. Remédios comprados e encomendados pela família do jogador de futebol Fernando, ex-Grêmio e Seleção Brasileira.
Após a cobertura maciça da imprensa sobre o caso e a campanha ”Justiça Por Robson”, que tomou conta das redes sociais nos últimos dias e contou com o apoio de outros jogadores, a história do brasileiro chamou a atenção do Presidente da República Jair Bolsonaro, que prometeu tentar um acordo diplomático com o governo russo.
– Foi um momento de muita felicidade, de felicidade não, de esperança. Pra que tudo se resolva logo da melhor forma possível – afirmou Robson, filho do brasileiro preso na Rússia.
Robson não foi o primeiro brasileiro a ser preso na Rússia por entrar com uma substância proibida por lá. Em 2016, o pesquisador Eduardo Chianca também viveu essa experiência, e por mais de dois anos ficou encarcerado na penitenciária em Kachira, a cerca de 100km de Moscou, a mesma onde Robson está. Foram muitos momentos de angústia e sofrimento antes de um final feliz.
– Você fica confinado numa cela, três, três metros e meio por quatro metros, com uma média de dez pessoas. É muito pequeno. A estrutura física da prisão não é o pior. Normalmente, você toma um banho por semana. Eu tive um certo privilégio. Até pela idade, fui protegido, no sentido de não ser agredido, essas coisas. Apesar de ter sofrido ameaças de morte, eu sobrevivi – explica Eduardo Chianca que na época tinha 68 anos.
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Eduardo Chianca ficou detido na Rússia na mesma penitenciária em que Robson está — Foto: TV Globo
O pesquisador brasileiro foi condenado a seis anos e meio de reclusão em primeira instância, e teve a pena reduzida para três anos no segundo julgamento. A partir dali, o presidente Michel Temer e o presidente russo, Vladimir Putin, costuraram um acordo diplomático para que Eduardo Chianca fosse transferido para o Brasil. Ao chegar no Recife, em dezembro de 2018, Chianca conseguiu uma revisão da pena, e cumpriu os últimos meses da condenação em regime semi-aberto.
– A lei russa é muito dura, ela é duríssima. O meu caso foi mais complicado, porque fui o primeiro, tiveram que criar legislação que não existia para transferência de prisioneiro, então o processo dele, na minha visão, vai ser bem mais rápido, porque já tem uma lei estabelecida – afirmou Chianca.
Além de estar em um ambiente hostil e não saber falar russo, aos 47 anos, Robson tem a saúde frágil e precisa de cuidados. Ainda no Brasil, ele sofreu um acidente vascular cerebral, e, por isso, Robson precisa tomar remédios regularmente.
– Sempre procuramos saber sobre o estado de saúde dele, saber se ele está tomando os remédios que precisa tomar. Quando é inverno na Rússia, o pessoal da embaixada sempre nos informa que eles estão levando casaco, cobertores… Só temos informação sobre essas situações mesmo – disse o filho de Robson, que não falou com o pai nenhuma vez desde a prisão no dia 18 de Março de 2019.
Enquanto a diplomacia tenta agilizar o caso, a família afirma que só pensa em uma coisa: ver Robson de volta ao Brasil.
– O mais importante pra mim hoje, o que eu quero mesmo, é o meu pai de volta. E que o presidente Jair Bolsonaro possa fazer alguma coisa pra trazer meu pai de volta.
Entenda o caso
Robson e a companheira Simone viajaram do Rio de Janeiro para Moscou para trabalhar para Fernando, na época em que o meio-campo revelado pelo Grêmio e com passagem pela seleção, jogava no Spartak de Moscou. Embarcaram para a Rússia transportando, a pedido do sogro de Fernando, um medicamento legalizado no Brasil, mas proibido em território russo, o Mytedon – Cloridrato de metadona.
Na época, Robson alegou que não sabia o que tinha na mala, e que a família havia informado que a bagagem estava apenas com algumas roupas e mantimentos. O brasileiro acabou detido no aeroporto em Moscou, e preso trinta dias depois, acusado de ser dono do medicamento. Nem Fernando, nem a esposa do jogador, Rafaela Rivoredo, nem o pai de Rafaela, William Pereira de Faria, confirmaram para as autoridades russas que o medicamento era de William.
O sogro de Fernando, William Faria, não prestou qualquer esclarecimento para a polícia russa. No dia 6 de junho de 2019, três meses após a prisão de Robson, em depoimento Fernando disse não saber de que modo os remédios foram recebidos por Robson no Brasil, nem a forma de entrega, na mala ou em caixas de remédios não empacotadas, e acrescentou que não mantinha contato com o sogro.
Em momento algum do depoimento, Fernando afirmou que os remédios eram de William. Depoimento bastante semelhante ao da esposa Rafaela, que disse que não sabia que o pai havia pedido para Robson trazer os remédios. Na época, ela disse também não saber o endereço do pai, porque ele se mudava constantemente.
Em vídeos gravados em um celular para o Esporte Espetacular no dia 7 de setembro de 2019, Fernando deu um depoimento bem diferente do que foi dado à polícia russa.
– Quando eles foram parados no aeroporto, a gente imediatamente mandou o prontuário médico, receita, passaporte do meu sogro, tudo o que fosse necessário pra provar que o remédio era do meu sogro, porque realmente, o remédio era do meu sogro.
Fernando e a esposa se mudaram para a China, após o jogador ter acertado uma transferência do Spartak para o Beijing Guoan, no meio do ano passado. Os pais de Rafaela saíram da Rússia uma semana após a prisão de Robson. E nos últimos meses, a justiça russa adiou diversas audiências sobre o caso.
– Todos os momentos são difíceis, todos os minutos, todos os segundos são difíceis, não tem nenhum momento fácil. Sentimento de revolta. Estou nessa situação hoje por causa deles, fizeram o que fizeram, deram um depoimento mentiroso e foram embora da Rússia – declarou Robson no tribunal, acusando Fernando e a família de serem os responsáveis pela sua situação.
Em 566 dias desde a prisão de Robson, Fernando, Rafaela e William jamais prestaram um depoimento oficial, admitindo que o sogro do jogador era o dono dos remédios.
– Que eles façam um depoimento seja através de uma entrevista, seja através de documentos que a gente possa traduzir, juramentar e levar para Moscou pra que isso tenha valor jurídico. Mas que eles façam algo. O Fernando tem condições de comprar passagem aéreas de primeira classe, até de alugar um jato, e chegar lá em Moscou e dar um depoimento sobre o que realmente aconteceu. Mas isso eles não fazem – afirmou Olímpio, advogado de Robson no Brasil.
Fonte: Globo Esporte
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