
Um gesto silencioso que fez um imenso barulho. Nos pés de Marta, uma chuteira sem patrocinador passou recado, pedia mais respeito. O apelo da maior jogadora de todos os tempos reverberava nas arquibancadas da Copa do Mundo feminina no ano passado . Ganhou mais força e, pouco mais de um ano depois, vai se tornando palpável.
O caminho ainda é longo. Mas todos os passos são enaltecidos por quem briga por mudanças. No começo do mês, a CBF anunciou equiparações entre diárias e premiações das seleções femininas e masculinas. Além disso, anunciou a chegada de novas dirigentes para a gestão da modalidade: Duda Luizelli (coordenadora de seleções) e Aline Pellegrino (coordenadora de competições).
O anúncio foi celebrado em toda a comunidade global do futebol feminino, com jogadoras e ex-jogadoras repercutindo o Equal Pay brasileiro nas redes sociais. Apenas outras sete países aplicam a igualdade de pagamentos em suas seleções feminina e masculina: Austrália, Finlândia, Fiji, Inglaterra, Noruega, Nova Zelândia e Serra Leoa, que anunciou a novidade esta semana.
Nos Estados Unidos, as notícias tocaram Marta. Para a brasileira, a luta por igualdade é coletiva. Mas suas escolhas individuais permanecem firmes desde a Copa do Mundo do ano passado. E foram importantes nesse processo.
– Eu continuo sem patrocínio. Antes mesmo da gente iniciar essa campanha (na Copa) a gente recebeu propostas, até de renovação, mas acho que a valorização tem que partir da gente. Eu me sinto no direito de me valorizar, por tudo que a gente foi conquistando ao longo do tempo seja dentro de campo ou fora dele também. Eu queria dar esse exemplo pra outras atletas e até outras atividades fora do esporte, para que a gente possa buscar por igualdade. Juntas. Financeiramente eu não ganhei nada com isso, mas eu sinto que a mudança ela é nítida.
”Acho que não tem preço, e valeu a pena, tá valendo a pena e como eu falei, a valorização ela tem que partir da gente primeiro pra que as pessoas entendam que você tem que, o ser humano, qualquer que seja através do trabalho que ele tenha, através do que ele faz, e não do gênero” – Marta.
Desde julho de 2018, Marta está sem contato com qualquer patrocinadora de material esportivo. Foi assim que marcou o seu 17º gol em Copas do Mundo, superando o alemão Miroslav Klose como a maior artilheira de todas as Copas, entre homens e mulheres.
– A valorização ela tem que vir primeiramente de você. A gente espalhou a mensagem durante a Copa e a maneira como a gente agiu e vem agindo constantemente. (…) A nossa luta não é só no esporte, a nossa luta é na vida. A nossa luta é buscar igualdade pra todos em todos os sentidos. Então a gente fica super feliz e a gente vai continuar fazendo isso sempre, buscando a igualdade e o respeito.
“Meu desejo é que que a gente possa realmente ver a mudança e que as futuras gerações não tenha que sofrer tanto pra alcançar os seus objetivos”
Mudanças na CBF emocionam Marta
Eleita melhor do mundo seis vezes e embaixadora da ONU. Duas pratas olímpicas pela seleção (2004 e 2008) e um vice mundial (2007). Todas as conquistas de Marta e de outros nomes de sua geração foram alcançadas muito através de talento e sem tanto apoio, principalmente no começo.
Ver mudanças práticas acontecendo na gestão do futebol feminino do Brasil é algo que representa mais um título para Marta e sua geração. Emocionada, a camisa 10 lembrou sua trajetória e reforçou que ainda há muito a conquistar. Que mudanças precisam seguir acontecendo. E sonha, quem sabe, com o dia que não precisará mais pedir por igualdade.
– Olha , o caminho é longo né. A esperança é que realmente exista no futuro, espero que próximo, a possibilidade de vivermos num mundo igualitário e que eu não tenha que estar aqui falando sobre isso. (…) Quando saí de Alagoas, sonhava chegar onde cheguei. Então, essa minha fala é pra agradecer também as atletas e ex-atletas que já passaram pela seleção e que já plantaram aquela sementinha que a gente foi regando constantemente e que hoje tá começando a dar frutos. Então é difícil não se emocionar – disse Marta.
Fonte: Globo Esporte
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