Na véspera de mais uma rodada de negociações de paz com a Ucrânia mediadas pelos Estados Unidos, a Rússia rompeu a trégua parcial acertada entre Vladimir Putin e Donald Trump e promoveu um mega-ataque contra o rival nesta madrugada de terça-feira (3).
A ação veio um dia depois de o presidente americano fechar um acordo comercial com a Índia na qual Nova Déli, segundo ele, prometeu cortar a compra de petróleo russo. “Isso vai acabar com a guerra”, afirmou Trump.
O russo havia prometido poupar o sistema energético do rival, que enfrentou temperaturas de cerca de -20 graus Celsius nesta noite. Ao longo da segunda (2), não havia atacado nenhum alvo relevante.
Isso acabou, segundo nota do próprio Ministério da Defesa russo. Na conta dos ucranianos, foram lançados 450 mísseis, 92% dos quais acabaram abatidos, e 71 mísseis, dos quais 47% atingiram alvos.
Com a ação, houve blecautes em algumas partes do país, inclusive na capital, Kiev, embora não na escala vista nas últimas semanas. Mas o ataque foi forte: entre os mísseis, foram empregados alguns modelos hipersônicos Kinjal e Tsirkon, esse raramente usado.
O bombardeio foi centrado nas duas maiores cidades da Ucrânia, Kiev e Kharkiv. Há relatos de feridos, mas como a ação seguiu pontualmente ao longo da manhã, não foi revelado um balanço final.
Ele ocorreu poucas horas depois de Trump dar declarações otimistas sobre as conversas que irão recomeçar na quarta (4) em Abu Dhabi. “Eu acho que estamos indo muito bem com a Ucrânia e a Rússia. Pela primeira vez digo isso. Acho que nós teremos, talvez, algumas boas notícias”, afirmou.
Trump havia dito que a pausa ocorreria devido às baixíssimas temperaturas da Ucrânia, já que os ataques têm sistematicamente cortado energia, aquecimento e fornecimento de água para os moradores de cidades maiores.
Já o Kremlin havia confirmado que suspenderia ataques, mas para desanuviar o clima para as conversas, que estavam previstas para o domingo (1º), mas nunca parou de fato de agir, com exceção da segunda (2).
Há um padrão aqui. Os russos costumam promover ataques mais intensos na guerra que iniciaram há quase quatro anos sempre que há um evento relevante na seara política, seja encontros entre aliados de Kiev ou tentativas de negociação.
É uma forma, na visão russa, de demonstrar determinação num momento crucial da guerra. A questão do petróleo irritou particularmente o Kremlin, segundo a reportagem ouviu de uma pessoa próxima do governo russo nesta terça.
Oficialmente, a reação foi de esperar para ver. “Não ouvimos nenhuma declaração do lado indiano sobre isso. O que mais importa é nossa relação estratégica com a Índia”, afirmou o porta-voz Dmitri Peskov.
Segundo dados do finlandês Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo, desde que a Europa decidiu começar a reduzir a compra de petróleo russo devido à guerra, em dezembro de 2022, Nova Déli foi responsável por 38% das importações do produto russo a China lidera, com 47%.
Em dezembro, quando as sanções impostas por Trump às duas maiores petroleiras russas começaram a fazer efeitos, houve uma redução de 29% nas compras, ante outubro, uma tendência que deve continuar. Ainda assim, naquele mês os indianos compraram R$ 11,2 bilhões em petróleo de Putin.
As conversas marcadas para Abu Dhabi também vêm sendo precedidas pelo que é percebido como movimentos inaceitáveis pelos russos.
Nesta terça, o jornal britânico Financial Times publicou que as garantias de segurança trabalhadas para que a Rússia não volte a atacar a Ucrânia preveem um plano que, no limite, obrigaria a Otan a entrar em guerra com Moscou.
O secretário-geral da aliança militar ocidental, o holandês Mark Rutte, disse nesta terça que acabar com o conflito implica “escolhas difíceis”, o que inclui concessões territoriais de Kiev na prática.
Ele disse que hoje os europeus fornecem 90% da munição antiaérea de Volodimir Zelenski, comprada dos EUA por meio de um programa bolado por Trump para não ajudar gratuitamente os ucranianos. Rutte vai visitar Kiev nesta terça.
Redação