Em 9 de janeiro de 1995, Abdias Pereira Dantas concedeu uma reveladora entrevista ao casal de pesquisadores Tânia Maria de Sousa e José Romero Araújo Cardoso.
O registro oral, realizado na residência do entrevistado, em Nazarezinho, Paraíba, convertido em narrativa histórica e memorialista, reconstrói com minúcia e sentimento uma época marcada pela violência, pela política sertaneja e pelas ambiguidades morais do sertão paraibano nas primeiras décadas do século XX.
O texto intitulado “O Sertão de uma Época nas Reminiscências de Abdias Pereira” é uma narrativa memorialista de profundo valor histórico e antropológico, que resgata, através da fala lúcida e dolorosamente serena de Abdias Pereira Dantas, os conflitos, tensões e dilemas do sertão paraibano do início do século XX. Abdias, último remanescente da família Pereira Dantas de Nazarezinho, oferece um retrato denso da violência política, dos códigos de honra e das estruturas de poder que atravessavam o sertão naquela época.
A obra recupera a trajetória de seu pai, o “Coronel” João Pereira da Silva, assassinado em 1922, durante as obras de construção do Açude de São Gonçalo, no município de Sousa. Mesmo em agonia, o coronel proferiu o apelo profético: “Vingança, não”, recomendação ignorada pelos filhos, especialmente por Chico Pereira, figura central do texto. Este, impelido pela honra e pressionado pela moral sertaneja, ingressou no cangaço e acabou ligado ao bando de Lampião, participando da histórica invasão de Sousa em 1924.
Os autores não apenas documentam fatos, mas revelam os sentimentos e dilemas de uma época, tornando o texto uma poderosa intersecção entre memória individual e memória coletiva. O sertão narrado por Abdias é ao mesmo tempo palco de dramas familiares e espelho das lutas sociais e políticas de um Brasil profundo, marcado por injustiças e alianças instáveis entre coronéis e oligarquias regionais.
Entre os personagens que surgem no relato, destaca-se de forma surpreendente o tenente Manoel Benício, comandante das forças volantes paraibanas. Em um gesto inesperado, Benício resgata Chico Pereira após este ser picado por uma cascavel, escondido nos ermos entre a Paraíba e Pernambuco, na serra do Pau Ferrado, localizada na zona limítrofe de Princesa (atual Princesa Isabel) e Triunfo.
Longe de cumprir o papel esperado de perseguidor, Benício o recolhe inerte e o salva, encaminhando-o ao “Coronel” Nilo Feitosa, no Cariri. Esse episódio, além de raro, revela as ambiguidades do sertão: onde a amizade podia ultrapassar os limites entre autoridade e fora da lei, entre o dever militar e a lealdade pessoal. A atitude de Benício humaniza o cenário da repressão ao cangaço, demonstrando que o sertão era tecido por vínculos que escapavam às lógicas institucionais.
A figura de Chico Pereira, entre o mito e a realidade, continua a suscitar polêmicas. Se há quem diga que tombou no Rio Grande do Norte, outros alimentam a crença de que escapou com vida. Abdias prefere crer na primeira versão, embora reconheça o peso simbólico que a imagem do irmão vingador carrega na cultura oral sertaneja.
O texto termina com uma reflexão pungente: Abdias, já em idade bastante avançada, considera que, apesar dos clarões de espingarda de sua juventude, o presente é ainda mais cruel — uma era de incertezas, desemprego e perda de valores humanos. A fala do sertanejo, marcada pela dor e pela lucidez, ecoa como denúncia e elegia de um tempo que passou, mas que ainda deixa rastros na memória da terra.
Mais que um testemunho sobre o cangaço, esta obra é um documento sobre a alma do sertão. A partir da memória de Abdias, os autores conseguem captar a essência de uma época marcada pela dureza, mas também por lealdades inesperadas e gestos de humanidade. A presença de Manoel Benício no enredo é exemplo disso: num mundo de polarizações, ele simboliza a complexidade das relações humanas no sertão, desafiando qualquer maniqueísmo simplificador.
JOSÉ TAVARES DE ARAÚJO NETO
