
As cidades do interior são ricas em pessoas/personagens que marcam as suas ruas. São pessoas que conhecem a todos e que todos têm uma história para contar dela ou com ela. Carú era assim ou até mais do que isso. Tinha sempre uma fala apaixonada, seja qual fosse o assunto. Falava balançando exageradamente os braços, como se buscasse o ritmo perfeito para as suas narrativas.
Carú é marca forte em minha infância. Vivia sempre pela casa de tio Jessé e lá por casa. Jogou como goleiro pelo nosso inesquecível América, que Carú chamava de Mequinha, um time de quatro na linha e ele como goleiro. Jogávamos no chão batido em frente da minha casa ou da igrejinha evangélica que fica ali por perto. Depois de cada jogo sempre tinha o debate e quando perdíamos era um ‘Deus nos acuda’. E tinha os que diziam: “Se aquele gol não tivesse sido perdido, se aquele passe tivesse sido certo”. Um monte de se, se, se… Carú agitava os braços, passava as costas da mão pela boca e dizia: “Agora pronto!, se, se, se… se pai não tivesse conhecido mãe eu não tava aqui”. Assunto encerrado!
Quando papai estava consertando ou mexendo na caçamba Carú sempre estava por perto, seja somente olhando ou auxiliando na entrega de uma ferramenta. Mamãe conta que um dia, Ana Paula, minha irmã mais nova, bem pequena, estava por trás dos pneus traseiros da caçamba, papai não viu e ia sair no carro. Carú deu um berro, correu, puxou Ana Paula e evitou uma tragédia. Foi um herói, o nosso herói.
Um dia ele estava com um bilhete de uma das loterias na mão e pediu dinheiro emprestado a papai para jogar. Ganhou um certo valor e depois de um bom tempo voltou lá por casa. Papai disse: “Carú, que bom, soube que você acertou na loteria”. E ele emendou na mesma hora: “Mas não foi com aquele dinheiro que o senhor me emprestou não; aquele eu comprei umas coisinhas lá pra casa que tava faltando”.
Cuidou da minha avó, Inácia, até a morte dela. Com dedicação e muita paciência foi o guardião, o anjo que guardou uma velhice que tirou a locomoção e a consciência da minha avó.
Carú era uma máquina de contar histórias. Sempre que eu chegava a Pombal ele aportava lá por casa. Falava de política, de meio ambiente, da cidade e de cultura. Endeusava o grupo folclórico Reisado e dançava como ninguém. Falava da grande paixão, o futebol. Torcedor fanático do Flamengo, foi um incentivador do esporte em Pombal. Criou o Constituinte Futebol Clube, mas ficou conhecido mesmo por dirigir o Azulão. Virou até sobrenome, Carú do Azulão!
Trabalhava no hospital como maqueiro e soube que ele tinha medo de alma. Não ia a certos lugares sozinho ‘nem a pau’. Um dia perguntei se era verdade e ele disparou que era conversa do povo, “o que eu tenho é precaução”. Eu disse que gostei muito do apelido que encontrou para medo e ele ‘disparou na risada’.
Vinha fazendo umas incursões estrambólicas nas redes sociais. Tinha canal no YouTube e até no TikTok, onde encarnava personagens que talvez nem ele mesmo entendesse, como uma tartaruga ninja com uma tampa de plástico atada às costas, uma fita nos olhos, uma marreta e um cabo de vassoura nas mãos. “É pra tirar onda”, dizia.
Enfim, Carú foi um daqueles personagens que dão luz a uma cidade, que permeiam os recantos de alegria, de polêmica. Um salve a Carú, um salve a um dos últimos embaixadores da simplicidade, das ruas, do povo e da inteligência natural e genial do interior!
José Vieira Neto