
Luciano Bonilha Leão foi o segundo réu pelo incêndio na boate Kiss, a ser ouvido durante o julgamento sobre o incêndio, em Porto Alegre, nesta quinta-feira (9), nono dia de júri. Auxiliar da banda Gurizada Fandangueira, ele acionou o artefato pirotécnico que iniciou o fogo na boate.
“Tenho consciência tranquila que não foi meu ato que tirou a vida desses jovens. Se for pra tirar as dor dos pais, eu tô pronto, me condenem”, afirmou. “Se eu tivesse morrido lá, hoje sentada aqui tem a maior joia da minha vida, que é a minha mãe. Ela ia tá ali sentada com eles [familiares]”
Ele contou que a banda já havia feito ao menos nove shows com artefatos pirotécnicos. Na Kiss, ele recorda de duas apresentações com fogos. Luciano afirmou que a banda não sabia que o teto do palco havia sido rebaixado e revestido de espuma. “Se acreditava que era tudo seguro”.
Luciano contou que começou a trabalhar com a banda a convite do gaiteiro Danilo Jaques, que faleceu na tragédia. Foi a pedido de Danilo que Luciano comprou os artefatos pirotécnicos que a banda usou no palco.
“Ele me designou que eu tinha que comprar. O Danilo gostava as coisas tudo certinho. Era muito organizado. Eu cheguei lá, o rapaz [da loja] entregou, e eu levei pro Danilo”. Luciano contou desconhecer que tipo de fogo era usado, nem que ele poderia ser acionado em locais fechados. “Acho que era o que eles usavam [nos shows]”.
‘Fogo se espalhou’
Luciano acendeu o fogo de artifício, passou para o vocalista Marcelo de Jesus, e permaneceu junto ao palco, conforme relatou no júri.
Ele então viu que a chama tinha atingido o teto. “Era um fogo azul, pequeno. Peguei uma garrafa de água que tava no cubo do baixo e atirei. O fogo se espalhou”, descreveu.
Quem são os réus?
- Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, 38 anos, era um dos sócios da boate
- Mauro Lodeiro Hoffmann, 56 anos, era outro sócio da Boate Kiss
- Marcelo de Jesus dos Santos, 41 anos, músico da banda Gurizada Fandangueira
- Luciano Augusto Bonilha Leão, 44 anos, era produtor musical e auxiliar de palco da banda
Entenda o caso
Os quatro réus são julgados por 242 homicídios consumados e 636 tentativas (artigo 21 do Código Penal). Na denúncia, o Ministério Público havia incluído duas qualificadoras — por motivo torpe e com emprego de fogo —, que aumentariam a pena. Porém, a Justiça retirou essas qualificadoras e converteu para homicídios simples.
Para o MP-RS, Kiko e Mauro são responsáveis pelos crimes e assumiram o risco de matar por terem usado “em paredes e no teto da boate espuma altamente inflamável e sem indicação técnica de uso, contratando o show descrito, que sabiam incluir exibições com fogos de artifício, mantendo a casa noturna superlotada, sem condições de evacuação e segurança contra fatos dessa natureza, bem como equipe de funcionários sem treinamento obrigatório, além de prévia e genericamente ordenarem aos seguranças que impedissem a saída de pessoas do recinto sem pagamento das despesas de consumo na boate”.
Já Marcelo e Luciano foram apontados como responsáveis porque “adquiriram e acionaram fogos de artifício (…), que sabiam se destinar a uso em ambientes externos, e direcionaram este último, aceso, para o teto da boate, que distava poucos centímetros do artefato, dando início à queima do revestimento inflamável e saindo do local sem alertar o público sobre o fogo e a necessidade de evacuação, mesmo podendo fazê-lo, já que tinham acesso fácil ao sistema de som da boate”.
Fonte: G1 RS/RBS TV