
Confinado pela pandemia do coronavírus e praticamente assegurado como candidato democrata à Presidência, o ex-vice-presidente Joe Biden articula sua campanha em lives transmitidas do porão de casa, em Delaware. Não bastassem a interrupção da corrida e o afastamento forçado de comícios, o principal rival do presidente Trump nas eleições de novembro tem agora no seu encalço novas acusações de assédio sexual, que ele negou categoricamente, por escrito e na TV, nesta sexta-feira (1).
Tara Reade, ex-assistente de Biden entre 1992 e 1993, quando ele era senador, ampliou, há um mês, as denúncias que fez contra ele no ano passado, junto com outras oito mulheres. No primeiro relato, em 2019, assim que o ex-vice de Obama decidiu entrar na corrida democrata, Reade contou que ele a tocara nos ombros e no pescoço.
Agora aos 56 anos, ela revela que o então chefe a teria empurrado contra uma parede no porão de escritórios do Capitólio, tocando-a inapropriadamente sob a camisa e a saia e introduzindo dois dedos na vagina.
Nesta sexta, Biden rompeu finalmente o silêncio que no último mês tanto frustrou seus aliados: “Isso nunca aconteceu. Não é verdade”, assegurou numa declaração por escrito, repetida em uma live, no programa “Morning Joe”, da MSNBC. Biden pediu também aos Arquivos Nacionais que divulguem qualquer registro de uma reclamação que Reade diz ter apresentado antes de ser desligada do emprego. “Se houve alguma queixa, o registro estará lá.”
Até que ponto essas acusações de assédio sexual ocorridas há 27 anos embaçarão a campanha do candidato democrata na disputa pela Casa Branca? O prolongado silêncio de Biden, conhecido defensor dos direitos de sobreviventes de agressões sexuais, tornou-se insustentável para seus aliados.
Acirrou também os ânimos de republicanos, reavivando as lembranças das exaustivas audiências no Senado que antecederam a confirmação à Suprema Corte do conservador juiz Brett Kavanaugh, indicado pelo presidente e acusado de assédio sexual na época em que era estudante em Yale.
O próprio Trump aproveitou para puxar para si as acusações contra Biden. “Podem ser acusações falsas. Sei tudo sobre acusações falsas, fui falsamente acusados várias vezes.” Durante a campanha presidencial de 2016, as frequentes denúncias de ex-funcionárias contra o então candidato republicano criaram alvoroço, mas não o impediram de conquistar a Casa Branca.
Só que agora o telhado de vidro paira sobre o campo democrata. Ativistas do movimento #Metoo e outras entidades feministas relutam em articular uma reação, que seria virulenta caso a denúncia tivesse como alvo o atual presidente.
O temor de que Trump se reeleja em novembro freia e retarda uma resposta negativa que possa prejudicar Biden e reduzir suas chances de vitória. Pressionados a se posicionar, democratas proeminentes se equilibram entre a defesa de seu potencial candidato e a principal bandeira dos movimentos de defesa dos direitos de mulheres — dar voz às que foram agredidas por homens poderosos. E Biden finalmente demonstrou que Tara Reade deve ser ouvida.
Fonte: Blog da Sandra Cohen/G1