
A ex-presidente Dilma Rousseff lamentou, neste sábado (5/5), ter assinado a lei que prevê a colaboração premiada. “Infelizmente, assinei a lei que criou a delação premiada. Digo infelizmente porque ela foi assinada genericamente, sem tipificação exaustiva. E a vida mostrou que sem tipificação exaustiva, ela poderia virar uma arma de arbítrio, de absoluta exceção”, disse a ex-presidente.
Foi durante o primeiro mandato de Dilma, em 2013, que a colaboração premiada acabou sendo institucionalizada, por meio da sanção pela petista da Lei de Organizações Criminosas. Desde então, o instrumento tem sido uma ferramenta largamente utilizada pela força-tarefa da Operação Lava Jato, que sacudiu o mundo político e atingiu em cheio o PT, além do PMDB e do PP.
Dilma também comparou a forma como as delações premiadas da Lava Jato vêm sendo negociadas com uma forma de tortura.
“Prendem e submetem a uma forma de controle. Na minha época, era uma moleza: era só ser preso – já que torturavam, tinha pau de arara, choque, afogamento e morte. Para nós era considerado leve, mas para as pessoas normais ser preso é gravíssimo: é perder a liberdade e o direito de ir e vir”, disse a ex-presidente. “Por isso em alguns países se usa a exigência de que a delação só possa se dar sob condições voluntárias. Porque do contrário você submete e induz a pessoa a dizer o que você quer ouvir. A tortura faz isso. A tortura faz a pessoa dizer o que se quer. Às vezes, a pessoa não diz, mas às vezes a pessoa mente. Se se mente sob tortura, imagina se não se mente sob delação premiada”, acrescentou.
Além da Lei das Organizações Criminosas, Dilma disse que seu governo e o de seu antecessor e padrinho político, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ajudaram a criar ou implementaram outros mecanismos contra a corrupção e o crime, como a nomeação de procuradores-gerais independentes e investimentos na Polícia Federal. “O lulopetismo era o inimigo a ser destruído. Utilizaram o que nós mesmos construímos contra nós”, disse.
“Lula é o candidato do PT”
Dilma foi recebida no fórum por uma ampla plateia de apoiadores. Vários membros do público gritaram frases em apoio a Lula e contra a Rede Globo e o juiz Sérgio Moro. Bem à vontade no ambiente, Dilma voltou a afirmar que foi vítima de um “golpe parlamentar”. Segundo ela, a condenação e prisão de Lula é mais uma etapa desse golpe. “Foi um golpe parlamentar. Articulado pelo partido da mídia e da toga, parte da elite e pelos partidos que organizaram”, disse ela.
A petista também lançou outras críticas contra a Lava Jato. Ela afirmou que as cinco maiores empreiteiras do país foram “sistematicamente destruídas” durante o processo de combate à corrupção. “Quando a Volkswagen e a Siemens foram pegas, ninguém destruiu as empresas”, disse Dilma, citando o caso das empresas alemãs que foram processadas por envolvimento em casos de falsificação de emissões e pagamentos de subornos. “Você teve um processo contra os corruptores, mas não contra a instituição.”
Por fim, Dilma voltou a afirmar que o PT não cogita outra candidatura à Presidência que não a de Lula, que está preso e é ameaçado pela Lei da Ficha Limpa. “O PT não vai tirar o Lula nem oferecer outro candidato. Nós iremos sustentar a posição de inocência, e não cabe a nós tirar o Lula das eleições. Ele é uma ideia de unidade. Se o Lula participar, ele ganha a eleição”, disse Dilma.
Ela, no entanto, disse que não vê o PT dominando para sempre as candidaturas de esquerda no país em eleições posteriores a 2018. “Seria absurdo discutir plano B. Mas isso não significa que eu ache que os candidatos do futuro serão todos do PT. Nós vamos ter que passar o bastão para as novas gerações”, completou.
Fonte: Metrópole