
A Rússia terá eleições presidenciais neste domingo (18). Serão oito candidatos, e Vladimir Putin é cotado como favorito – as pesquisas apontam que ele tem cerca de 70% das intenções de votos. Se acontecer um inesperado segundo turno, ele será em três semanas, no dia 8 de abril.
É necessária maioria absoluta para o vencedor ser confirmado ainda no primeiro turno – o que deve ocorrer, segundo as pesquisas. A última eleição em que isso não aconteceu foi em 1996, quando Boris Yeltsin enfrentou Gennady Zyuganov. O líder comunista Zyuganov, que ficou em segundo lugar nos últimos pleitos, não irá concorrer desta vez.
Os russos, no entanto, não se animam muito com eleições previsíveis. Nas parlamentares, em 2016, a participação em Moscou foi de 35%. O número mais alto de candidatos pode aumentar a “emoção” do pleito, mesmo que controlado, e é um desejo de Putin – ele quer que a vitória tenha uma cara mais legítima para rebater as acusações de autoritarismo do Ocidente.
Sem suspense
Putin, portanto, caminha para conquistar um novo mandato, que o deixaria no poder até 2024, ao fim de uma campanha sem suspense, em que ele buscou acima de tudo, garantir uma participação satisfatória em meio a um clima de extrema tensão com o Ocidente.
Com informa a agência AFP, as sanções britânicas em reação ao envenenamento do ex-agente duplo Serguei Skripal na Inglaterra reforçaram a impressão de uma nova Guerra Fria desde o retorno de Putin ao poder em 2012, com o conflito na Síria, a crise na Ucrânia e a acusação de ingerência na eleição presidencial americana.
Enquanto, em Londres, a primeira-ministra Theresa May classificava como “trágica” a “via” tomada pelo presidente russo, Putin terminava sua campanha na quarta-feira (14) com uma visita à Crimeia, península ucraniana que, no domingo, participará da eleição presidencial russa pela primeira vez desde sua anexação há quatro anos.
“Com essa decisão, restabeleceram a justiça histórica, interrompida na época soviética”, declarou Putin na quarta-feira, em discurso para partidários em Sebastopol. “Mostraram ao mundo inteiro o que é uma verdadeira, e não uma falsa democracia”, completou.
Putin, de 65 anos, dos quais 18 como presidente, ou primeiro-ministro, acumula o período mais longo no poder de um dirigente russo desde Stalin.
Da península de Kamtchatka, ao leste, ao enclave de Kaliningrado, ao oeste, os 107 milhões de eleitores desse imenso país com 11 fusos horários começarão a votar às 8h locais do domingo — sábado, 17h em Brasília, no caso dos primeiros colégios eleitorais, no extremo leste. A votação se encerra às 14h de Brasília, no domingo.
Nas regiões mais remotas, a votação já está acontecendo para facilitar o transporte das urnas, de modo que os nômades Nenets no Ártico também possam se expressar.
Pesquisas
Na última pesquisa do instituto público VTsIOM, Putin aparece com 69% das intenções de voto. O segundo candidato, Pavel Grudinin (Partido Comunista), teria 7%; e o terceiro, o ultranacionalista Vladimir Zhirinovski, cerca de 5%. Os outros cinco candidatos aparecem com um registro pouco significativo.
“A concorrência não é suficiente”, disse à AFP Andrei Buzin, copresidente do movimento especializado em defesa dos direitos dos eleitores Golos, para quem “o espectro político russo não está totalmente representado”.
Inabilitado
O grande ausente na eleição presidencial é o opositor número um do Kremlin, Alexei Navalny, o único que consegue mobilizar milhares de pessoas, mas que está inabilitado a se candidatar devido a uma condenação judicial. Para ele, trata-se de uma orquestração do governo.
Às vésperas da eleição, o Kremlin faz de tudo para que a participação – o verdadeiro termômetro dessa eleição – seja a mais alta possível.
Desde o início da campanha, a imprensa resume o objetivo do Kremlin com a fórmula “70-70”: 70% de participação e 70% de votos para Putin. E, para esse fim, todos os meios são válidos.
O jornal independente “Novaia Gazeta” relata que estudantes de várias cidades do país foram obrigados a se inscrever nas listas eleitorais sob pena de “problemas nos exames, ou até foram ameaçados de expulsão”.
Em algumas cidades, antecipou-se a abertura dos colégios eleitorais para permitir que os operários pudessem votar antes de irem para as fábricas.
Em fevereiro, citando três fontes do alto escalão do governo, o jornal RBK falava de um projeto particularmente estudado para estimular os funcionários e os trabalhadores das grandes indústrias a irem votar.
Segundo os dois jornais, nenhuma instrução de voto foi dada.
“Esta campanha eleitoral é diferente das anteriores. Primeiro, porque está claro que, na cúpula do poder, se tomou a decisão de evitar a fraude”, afirmou Andrei Buzin, que disse não acreditar em “fraudes em massa como as de 2007 e de 2011”.
Para evitar as fraudes, serão instaladas pelo menos 40 mil câmeras de vigilância nos colégios eleitorais, lembrou ele, acrescentando, porém, que essa medida diz respeito aos principais colégios eleitorais, “mas não sabemos o que acontecerá nos pequenos”.
Quase 1.400 observadores estrangeiros foram acreditados, segundo a Comissão Eleitoral.
Apesar dos esforços do Kremlin, a estimativa de participação está abaixo do esperado.Segundo Stepan Gontsharov, do centro de pesquisas independentes Levada, a participação deve chegar a algo entre “57%-58% e 67%-68%, ou seja, o equivalente à última eleição”. Já a VTsIOM antecipa entre 63% e 67%.
Fonte: G1