
Do microfone do barzinho aos maiores palcos do Brasil, Marília Mendonça não inspirou apenas fãs, mas também mulheres que usam o poder da voz para cantar o que vai muito além da música, a representatividade.
Considerada por músicos e especialistas como a líder de um movimento transformador dentro do sertanejo, que trouxe as mulheres para um local de protagonismo, Marília é apontada como um divisor de águas no gênero musical e como uma lacuna que jamais será preenchida.
G1 Goiás e O Popular publicam uma série de reportagens especiais em homenagem a Marília, no 1º ano após a morte da cantora.
Apesar de ter estreado em 2015, com um EP homônimo, foi a partir de 2016, com o lançamento do DVD “Marília Mendonça Ao Vivo” que a rainha da sofrência começou a tocar o coração dos admiradores com ainda mais intensidade. Nesse período, Marília também iniciou uma extensa quebra de recordes que se estende até mesmo após sua morte.
Cantoras que estão começando a carreira e já despontam em Goiás contam que Marília é inspiração para uma longa caminhada. Elas relatam sobre o que a jovem voz encantadora da rainha da sofrência deixou e cantam seus sucessos (veja acima).
A cantora Yasmin Santos que tem um timbre de voz perceptivelmente parecido com o de Marília, realizou o sonho de cantar com sua musa inspiradora do sertanejo em 2019. Ela é um exemplo de novo destaque da música, já com grandes sucessos disparados como: “Para, Pensa e Volta”, gravada com Marília (assista acima).
“No meu primeiro DVD tive a oportunidade de gravar uma música com a Marília e realizar meu grande sonho. Ela me inspirou de várias formas: pela carreira que ela construiu e consolidou, pelo ser humano que ela era e por quebrar várias barreiras super importantes”, disse Yasmin.
Ainda que grandes cantoras do sertanejo já estivessem em atividade quando Marília lançou seu primeiro trabalho, a transformação que a sertaneja trouxe para o sertanejo, segundo as próprias cantoras, ultrapassa a própria carreira dela, abrindo portas para um novo subgênero da música sertaneja: o feminejo.
Para a Ana Christina de Pina Brandão, que é doutoranda em estudos da linguagem pela Universidade Federal de Catalão (UFCAT), e cujo trabalho de mestrado teve como um dos principais objetivos refletir sobre o empoderamento nas canções interpretadas por Marília Mendonça, o “feminejo” foi um dos maiores acontecimentos da música sertaneja.
Ela ainda explica, no entanto, que o feminejo não foi um acontecimento isolado, mas devido a uma série de avanços sociais nas pautas feministas que ocorreram anteriormente a ele próprio.
“O sertanejo sempre foi um segmento musical foi preponderantemente masculino, mas Marília Mendonça conseguiu ser um acontecimento ainda maior do que próprio “feminejo”, complementa Ana.
Além de interpretar várias canções de outros compositores, Marília criou um vasto repertório de 335 obras musicais autorais e 444 gravações de composições suas e de outros artistas cadastradas no Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad). Seu hábito de compor as próprias músicas e ter lançado músicas autorais foi o que a diferenciou dentro do sertanejo.
Para o diretor de filmes Anselmo Troncoso, o fato de a Rainha da Sofrência compor grande parte das músicas que cantava foi o que contribuiu com a popularização de músicas com o ponto de vista feminino.
“Ela escrevia as músicas com o olhar feminino, olhar que até então na música sertaneja você não tinha muito. A maior parte era muito mais masculina do que uma visão feminina. Com isso ela traz todas essas coisas que muitas vezes as pessoas não imaginavam que fosse dessa forma”, explicou Anselmo.
Ele ainda explica que esse movimento se deu com tamanha intensidade devido ao contraste de quando cantoras utilizavam majoritariamente composições masculinas, que colocava as mulheres em uma posição diferente da que elas exercem atualmente no gênero musical, que é a de protagonistas. O diretor ainda falou sobre o empoderamento que a cantora trouxe, de modo a incentivar as demais mulheres a “serem elas mesmas” e agir da forma que achassem mais convenientes.
“Ela começa a trazer um empoderamento maior para as mulheres, porque muitas tinham vergonha de falar que às vezes chorava por um homem, que às vezes bebia, ia para o bar”, pontuou.
Essa ampliação de visões de mundo, segundo ele, permitindo uma ampliação de horizontes e, consequentemente, uma transformação do que se entendia por sertanejo até o surgimento de Marília Mendonça. A pesquisadora Ana Christina também ressalta o ato de compor da Rainha da Sofrência, ao pontuar a pequena quantidade de compositoras mulheres dentro da música popular brasileira, em especial o sertanejo, quando comparado com o número de homens.
“Eu acho que não apenas como intérprete, mas como compositora, Marília abre um espaço de importância para as mulheres nesse segmento musical”, complementou Ana.
Fonte: G1